domingo, 18 de setembro de 2011

Peso da leveza no olhar



Olhos pesados, refletindo o cansaço do mundo.
Pesados de mentiras, de omissões.
Pesados do falso, do efêmero, do que é para já não ser mais.

Olhos pesados, transbordando as próprias verdades nas íris.

Doentes de uma busca inexprimível, saudáveis de sanidade.
Visam um mundo à procura de outro (para nunca encontrar).
Estão abertos de tão fechados.

Olhos pesados, alcançando a leveza do desejo.
Pesam de veracidade, de sinceros que são.
Olhos que pesam, de tanto que confiam, desconfiados estão.
Misturam o interesse em estar vivo com a exaustão de existir.
E pesam, pesados que são.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Amparo

Sou este medo do mundo que habito - como se habitá-lo não me fosse natural -, mas se mergulho no contorno verde de seus olhos, que me entregam uma esperança que não esperava encontrar, logo esqueço meus temores para abraçar o encanto do que nos envolve. Parece-me que sou incapaz de resistir ao que você me desperta.

Eu tomo sustos de existir. Tenho um coração frágil que se dói todo quando acelera, quando quase para. Constantemente me perco na falta de habilidade de ser o eu que sou. É que o mundo me assusta, de mundano que é. Mas aí você aparece e me acorda um sorriso, dorme minhas tristezas, boceja devagar uns sussurros e me ama de um jeito que nem pra entender, nem pra explicar. E eu me espreguiçando do mundo, adormeço em você.

De tanto aparecer em meus sonhos, você já se parece um. Com direito a despertar assustada, sorrindo, devagar, quase dormindo, sem abrir os olhos, só ouvindo.

É que ao seu lado qualquer medo parece nenhum, qualquer desafio soa pequeno, qualquer dor finge que nem existe, todos os traumas recuam depressa e os teus dedos entre os meus tomam o lugar de tudo o que era significativo.

Nesses nados dessincronizados em seu olhar já muito me perdi, mas não quero me encontrar em outro lugar. O mundo me assusta. Deitada em seu peito eu me deparo com o lugar a que pertenço, onde os receios se dissipam, as alegrias se espalham, pois me percebi num mundo que me é natural, aconchegante e confortável.

No teu corpo, tenho um lar; na tua vida, um encontro; no teu mundo, o meu. Em você, amparo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pelas maçãs do rosto



Escorria. Na dor, escorria. Percorria seu caminho, dançava em seu rosto, marcava sutilmente sua pele.

Escorria. Porque na dor, era sua alternativa: escorrer. Em sua confusão e divergência, era sua fuga: escorrer.

E escorria. Na dor, escorria, jorrava, vazava. É que transbordava. Era na presença do cheio do vazio que transbordava e escorria.

Escorria. E se derramava. Era o sangue de sua verdade ferida, era o ardor de sua doença disfarçada, era a falta de clareza no excesso desta, enquanto seus olhos abertos enxergavam e olhavam atentamente os cantos empoeirados não ocultos pelos tecidos esvoaçantes da alma.

Escorria. Expressava em seu rosto avermelhado características de sua alma perdida, ferida, partida, mordida, e se ardia. E então escorria.

E nesse perder-se ao encontrar-se, não se via ao se ver. Ardia, doía, a ferida, a doença, esta dor neste ser nesta vida neste cheio deste vazio. E nas peculiaridades de seus equívocos extravagantes, escorria.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quase suicídio

Eu me desencontrei. Ou o contrário me aconteceu: eu me reencontrei comigo mesma e isto me assustou. As mudanças que eu julgava ter desenvolvido nunca aconteceram de verdade. Era só eu tentando ser quem eu gostaria de ser. Os meus medos são os mesmos, assim como a minha maneira de lidar com eles. Estive apenas disfarçada, vesti minha própria máscara e o que de pior se pode acontecer aos usuários de máscaras me aconteceu: acreditei. É, eu acreditei. Acreditei na minha própria máscara porque, de repente, eu parecia com quem eu gostaria de ser. Estava cada vez mais próxima do meu ideal de identidade até perceber que tudo não passava das mentiras que eu estava contando a mim mesma.

O que eu tinha? Ilusões. Não passavam de ilusões. Sobre mim mesma, sobre os outros, sobre o que temos em comum, o que não temos. Sou demais a minha imaginação. Esqueço de ser também a minha realidade. Transbordo nos sentimentos que me transpassam, mas não sei lidar com suas oscilações. Talvez eu entenda menos sobre sentimentos do que qualquer outra pessoa. Por isso me entrego. Por isso a eles sou tão fielmente devota. Eu os quero porque não os sei de verdade. Se os conhecesse, em mim não mais haveria interesse. E se os conhecesse, eu não seria esta confusão. Eu me confundo em mim de tão eu mesma que sou. E ser eu mesma implica as mentiras que me conto, nas quais acredito, as quais vivo quase ignorante. Eu digo quase porque não pareço ser nada completamente. Sou extremos, mas sou dos dois lados. Sou cá e acolá. Elástica que sou, só me resta voar longe quando solto os pontos.

O que há, em verdade, é uma relutância fervorosa em deixar de ser o que sempre fui. É a hesitação em caminhar outros passos adiante, virar a esquina, soltar os cabelos ao vento e sorrir seguindo, por consciência de que talvez não possa revisitar o caminho deixado para trás. Não são as migalhas de meu pão que deixo ao chão que me permitirão voltar. Não, estas me permitem apenas permanecer simbolicamente no que ficou. Mas ficou, não o terei mais. Nunca tive, talvez. O que seria possuir? O que é que temos? Temos é nada. É o nada. É o tudo. É só o que temos. Nem tempo, nós temos. Ainda assim, não queremos perdê-lo. Perco tempo se nunca o possuí? E como ganho tempo se nunca o terei?

Sei que eu peso. Às vezes me arrasto de tão pesada que estou para mim. É a vida sendo inteira, com as lembranças, e as outras vidas, e todos os encantos, os meus desprazeres, as superficialidades sem fim, todos os componentes disso que nem sei que sou, mas não deixo de ser mesmo assim. Ser é tanto. Por isso pesa.

Engraçado encarar a si mesmo. Pode acontecer de você acreditar que é tudo o que precisa ser e achar lindo. Mas você também pode se achar demais insuficiente para si mesmo. Digo engraçado porque consigo dos dois pontos a minha questão. Como posso me bastar e me ser tão insuficiente? As possibilidades, eis as culpadas. Ao ver suas possibilidades, a potencialidade de ser se inquieta dentro de si mesma: eu quero mais. E grita. Estou gritante. Quero mais disso que ainda não sou porque, quase de repente, eu não me quero mais. Não sou suficiente porque sei que posso ser mais, e exijo de mim aquilo de que sou capaz sem de fato saber se o sou. Estou sempre julgando saber que sei aquilo que perdi o poder de conhecer no momento em que acreditei que já conhecia.

Eu me sinto sangue. Eu me sinto pulsar, eu me sinto correr, eu me sinto vermelha, eu me sinto viva. Não sei pensar em sangue sem me apertar um pouco contra mim mesma. Daquele aperto que o coração dá de verdade - ou não dá, mas você sente. Mas não sei ver o sangue, e isto seria o mesmo que dizer meu medo da vida? Preciso me doar. Àqueles que precisam? Não sei. Sei que eu preciso. Percebe que sou demais para mim? Não me agüento. Preciso urgentemente me doar. Haverá quem me aceite?

Serei eu uma droga para mim mesma? Não aceito meu vício de mim, apesar de me sentir incapaz de me largar. Continuo implorando por doses de meu ser tão errado, de meus equívocos tão certos. Sou a necessidade de mudança em relutância pelo conforto que o já-sou-assim me dá. Eu quero ser um pouco diferente de mim. Eu preciso de quem não sou para me tornar o que quero ser. Será, então, neste reencontro com quem sempre fui que terei forças para me desatar do que já está em mim marcado; em mim, rearranjar-me, afinal, na busca de um encontro ainda maior – encontro comigo para me deixar de lado. Não posso mais ser as todas de mim. Preciso matar algumas. Derramar do meu sangue em nome da minha própria vida.

E agora sangro.


domingo, 3 de julho de 2011

Pra valer



- Pula?

Segurou firme sua mão, apertou-a.

- Chega mais perto de mim, vai. Me abraça.

- Eu não sei, eu não entendo.

- Pula comigo.

-
Vai doer.

- Mas vai valer.

Olhou bem fundo nos outros olhos, apertados.

- Valer o quê?

- Não sei. Sei que vale, vale sim. Vale a pena. Vale a dor. Confia em mim, vai valer. Tem valor.

- Você se joga assim, sem saber o que tem lá embaixo.

Arrepio que a imaginação provoca, encolhe-se pelo que desperta.

- Por que está de olhos fechados?

- Não quero ver.

- Tudo bem. Mas depois que você abrir, não tem mais volta, viu?

- Tenho medo.

Suspiraram.

- Eu sei. Eu tenho também.

- Você não tem medo.

- Tenho sim, tenho mais que você. Mas eu quero. Você vai pular comigo?

- Vamos continuar sentados um pouco. Pode ser?

- Um pouco.

Cheiro de brisa morna que não aquece o frio de dentro. Será que tinha sorriso? Será que tinha dor? Alegria, medo, saudade, carinho? Tinha ciúme? Tinha indecisão? Certeza? E esperança? Tinha futuro? Tinha o quê? Era fundo. Fundo demais, nem se via um fim. O medo sempre vem quando não se enxerga o fim.

- Não tem estrelas no céu.

- Você acha que se a gente mergulhar, encontra?

- Só dá pra saber se tentar.

- Para.

- Parar o quê?

- Tá me pressionando, quer fazer com que eu pule.

- Eu quero que você pule. Mas você só vem se quiser.

- Eu disse, tenho medo. Aquele medo do fim chegar de repente, pegar de surpresa e de jeito, deixar meio sem chão, meio sem ar.

Brisa morna que não aquece, que resfria o pensamento, que prende a respiração.

- Mas eu acho que vou.

- Eu vou continuar segurando sua mão. Se você tiver certeza que vai, de olhos abertos, peito estufado, a gente pula.

Houve um silêncio.

- Eu te amo.

E seus olhos enfim abertos encararam os cantos dos lábios do sorriso do outro.

- Eu sei. Eu também te amo. Estou aqui.

O medo hesita, o sentimento mergulha.

- Eu estou pronto.

- Eu estou aqui com você. Quer mesmo?

- Você está comigo. Eu quero.

Procuravam fôlego. Agora era pra valer.

- Eu quero pular olhando pra você.

- Eu te olho também.

- Segura firme de verdade.

Houve aquele respirar fundo de quem reúne coragem para se entregar. E houve entrega. Houve mergulho. Mergulharam, quase sem fôlego, encarando um ao outro em sua entrega. Ao redor, parecia nada haver. O mundo era o mergulho neste mundo que se apresentava ali, à frente, no mais profundo do olho do outro. Pularam sem pensar no fim, ignorando o medo da surpresa de sua chegada, na vã esperança de que nunca viesse. Pularam. Pra valer. Porque tinha valor. Nada mais.

- Vai ficar comigo?

- Até o fim.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Acúmulo



Desaprendi, pensei. E foi aí que me ocorreu que só é possível se desaprender aquilo que um dia se soube, e me corrigi pensando o mais humildemente que pude: não sei, nunca soube e acho que nunca saberei. Os laços que se criam não se desfazem dentro de mim. A imagem das fitas que um dia estiveram entrelaçadas em laço permanece guardada em algum lugar aqui dentro, lugar perdido, escondido mesmo, que se eu achasse poderia até me ater a desfazê-las, mas é nesse mistério onde se encontra que se mantém intocável.

Você vive e tudo que é vivido se desenha em sua pele, marcado a fogo, até queima, e nada se pode fazer, apenas sente as cicatrizes se formando, se é que um dia se completam, e sente as marcas se fazendo e tanto pesando, embora permaneçam insuspeitadas para quem vê – quem na verdade não vê, quero dizer. Porque ninguém vê as marcas do outro. Sentimos as nossas incomodar, mas as de outrem só nos são ditas – ninguém as vê. O máximo que podemos fazer é reproduzir um pouco do que nos é contado, mas só sente e vê quem sentiu e viu, ninguém mais.

Cá estou, minhas marcas pesando. Passado pesa, é verdade. Mas desaprendi – perdão, corrijo-me novamente – nunca soube me livrar do fui. Eu sou tantas e tanto, eu me peso de ser, embora não saiba ao certo como deixar de ser. Não sei bem desentrelaçar o já entrelaçado. Sou acúmulo. Eu me atenho a tudo o que um dia supus me pertencer e, no momento em que me percebo livre, encontro-me em desespero pois não sei me desapegar. Não sou pessoa que se livra. Sou uma liberdade acorrentada.

Veja bem, há futuro que nos espera, não é isso que dizem? Sim, sim, é o que dizem. Mas dizem muitas coisas. Dizem muito, mas como se faz? Também dizem que a vida ensina. Mas a vida lá é coisa capaz de ensinar? Não seríamos nós mesmos que vamos nos aprendendo e nos ensinando? Porque estamos vivos. E aí temos essa ilusão de que vida é coisa material capaz de conjugar tais verbos. Só que não sei me ensinar. Tenho atado minhas mãos impedindo-as de metaforicamente fazer o que seria melhor para mim. O “melhor para mim” no sentido de mentira-que-me-confortará, mentira-que-me-permitirá-sobreviver. Precisamos dessas mentiras, sim.

O que sei é que alguns lugares me mergulham num passado com o qual já havia aprendido a conviver. Alguns lugares me puxam de volta para o que já soube contornar. E será que soube?

Sei é que quero aprender comigo o que desaprendi, o que nunca nitidamente soube. Não sei o que é possível, mas só se sabe quando se experimenta. A experiência nos diz possibilidades, e as possibilidades nos trazem experiência. Preciso tentar. Tentar ser um pouco menos eu para chegar mais perto de mim. Estou tão distante. O passado me deixou distante de mim. Não quero essas distâncias. Não de quem me tem tão perto, que sou eu mesma. Estou perto demais de mim para me permitir afastamento. Viu só? Não sei desapegar, eu pego mesmo. Não sei me livrar, estou sempre me atendo. Não consigo deixar para lá, trago tudo pra cá. Não me afasto nem de mim mesma.

Sou um ímã em minha vida. Atraio tudo o que fui, o que quis, o que tive e transformo em quem sou, no que quero e imagino ter. Vou me enchendo de tudo. Trago tudo, pego tudo, atraio tudo – tudo tudo tudo.

Escrevo porque um dia sei que eu transbordo. Tenho medo, mas sei que transbordo. E no que se derramar no chão, acabarei por me perder. Por isso escrevo. Quando estiver vazia, quero saber que já estive cheia. E nessa esperança, quem sabe, me recompor (ou por completo me desfazer).


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Risco do ser

Eu sou assim, tantas oscilações. Eu me dôo por desejar. Dôo de me doer, dôo de me doar. Sou verdadeira desintegração; é que me sou inteira um incompleto, um incerto, um passo tão perto do interno que se dá não se dando. Mas eu me dou – não sei se a algo ou se a alguém, sei que minha não sou. Eu me entrego ao indeterminado e desconhecido.

Só estou segura de que não tenho segurança, de que sou perigo. Sou meu perigo. Preciso atentar silenciosa e fatalmente pois eu sou um risco para mim. Sou a tendência ao erro intuindo o acerto. Intuo, sou minha intuição. Eu me encontro no que pressinto e no que sinto é que me desencontro.

Sensibilidade que se contrai no não-ser quase sendo das coisas. Se me compreendes, estás perdido. Não te aches – me encontre. Quero cuidado. Sensibilidade que busca sensação é sensibilidade comum, também me quero em percepção. Perceba-me.

A ameaça que sou me põe contra a parede. Mãos ao alto, estou sem saída. Perdi minhas portas, guardei minhas chaves e me escondi do lado de fora. E sempre volto.

Não agrado e não me desagrado. Agradável mesmo é ser sem se saber sendo. Sou e me sei ser e me desmonto na consciência que me aprisiona. Decerto, meus perigos me agradam – nem me protejo. Sou barreira para a perfeição. Eu me quero em meus defeitos, eu me perturbo e me aprendo. Não sou apreendida.

Confusão que sou confunde quem não me é; confunde-me que sou; confunde. Nos paradoxos do meu ser, eu desaprendo quem sou, eu me desapego de mim, eu me desfaço do eu. E é assim que a mim me atenho e inevitável e perigosamente sou.