quarta-feira, 5 de março de 2014

Mudas danças


Entre danças,
o passo teme

Mudo,
o passo dança

Tremendo,
o passo anseia
se possuo o posso
de um passarinho

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Caleidoscópio


Estou frequentemente observando a maneira como as pessoas olham umas para as outras - nos sentidos todos que a palavra “olhar” pode adquirir. O que me surpreende é que se vejam dentro de um caixote onde não caberiam coisas demais: como, por exemplo, diferentes características; aparentemente contraditórias, porém não necessariamente excludentes. Pressupõe-se imediatamente que uma pessoa deve ser boa ou ruim, generosa ou egoísta, sensual ou delicada, inteligente ou estúpida, extrovertida ou quietinha. Mas aí se a gente sair reparando nas pessoas do nosso cotidiano, as pessoas reais, que não são o vilão da história ou a mocinha da novela, percebe-se que a realidade foge desta dualidade de “ou uma coisa, ou outra”.

O que somos vive em trânsito. Não consigo lançar sobre as pessoas um olhar estático de permanência: “você é e sempre será uma coisa ou outra”. Não. Eu sou o que eu quiser quando eu quiser ser. Às vezes sou o que eu não quero, meio sem querer, mas não me cabe o sempre. Você também. Somos situações e nossas reações às mesmas, e nossas ações sobre as mesmas, que são diversas. Esperar que de um substantivo germine sempre o exercício de um mesmo adjetivo é limitar sua compreensão do que virá a se mostrar do outro.

Somos livres para dizer “sim” e “não” aos nossos anjos e demônios. Para pensar antes em si mesmo, dizer a verdade e guardar um segredo. Plantar uma árvore e roubar uma flor. Tentar escalar uma montanha e passar o dia de pijama na cama. Contar uma mentira no primeiro de abril e em dezessete de julho. Abrir mão de uma vontade pra não magoar alguém e fazer o que deseja apesar de alguém. Escrever uma carta de amor e outra de ódio. Ouvir canções alegres e outras melancólicas. Querer atenção e não querer ninguém. Ser silêncio e ser discurso. Caminhar devagar e correr apressado. Só falar depois de ouvir e não ter paciência pra nem mais uma palavra. Para ser abertura ou não.

É que o outro é o outro, mas pode ser tantos outros quantos forem possíveis imaginar – e outros tantos mais. É que eu sou eu, mas posso abarcar tantos outros quanto eu posso imaginar – e tantos mais -, e todos os outros serei eu do mesmo modo imensurável. Que a gente não se limite a achar que somos menos do que tudo o que somos nesta oscilação de estados em que nos apresentamos inconstantes, imperfeitos, inacabados. Transitivos (que, em vão, tentam intransitivar), somos uma combinação de reflexos coloridos que se constitui diferente a cada movimento. Somos caleidoscópio.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ilus(traç)ão

Contemplava o espelho, em cacos, dolorosamente espatifado à sua direita. Achou bonito – os pedaços dispostos, desorganizados, refletiam sua imagem, em desarranjo. Espalhados como estavam, não lhe davam a ilusão de conhecer seu próprio rosto inteiramente. Via-se em alguns cacos, outros, virados ao avesso, não lhe representavam – os outros sim? – e questionava-se até que ponto se sabia como era.

Não sabia.

Talvez seja esta sua maior limitação (e desordem): não saber e, ainda assim, revoltar-se contra o que (acha que) sabe. O espelho era a ilusão da qual não queria se abster. Em cacos, ainda significava mais – o espelho - do que se não houvesse nada. O nada assusta, angustia, inquieta, não lhe deixa adormecer. O algo era preciso – o espelho era algo.

Acocorou-se.

Como se aproximar de si mesma se estava presa à sua imagem? Era esta sua prisão. Acorrentada ao que acredita ser, afasta-se de quem é. Seria necessário que se desaprendesse de si mesma – que seu autorreconhecimento acontecesse no “nunca” ao invés do “sempre”. Que se largasse, que se rompesse, que se destoasse, que se despercebesse.

Os cacos refletiam sua imagem, estilhaçada e incorreta, mas não lhe representavam. Ela não era os cacos dispostos no chão, confusos, imperfeitos. Ela não era a imagem que se formava despedaçada. Ela não era o espelho - o espelho não era o que lhe restava, era só o resto do que se parecia ser. O resto, às vezes, sequer faz parte do todo.

Livrar-se do espelho ainda não era a solução. Era preciso que encarasse o nada que se mostraria como o que havia de mais precioso em si mesma, o tesouro que encontrara em Si. Que se visse como quem não se enxerga para que fosse além do que alcançaria. Para que não mais houvesse o medo de que os cacos a definissem. Para que a imagem distorcida, ainda que falha, não fosse mais o seu conforto, a mentira à qual se agarra, temerosa que cair seja mais devastador do que é capaz de aguentar.

Não seria. Ela que seria...

Ela era reticências – e este nome ainda era deveras vago se para representar sua totalidade.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Abertura para (re)conhecer(se)

Eu tava ali muito dentro de mim mesma, presa naquilo que eu tinha a me oferecer ou precisava. Tava até separando o que é “dentro de mim” do que é “fora de mim”. A gente tem mesmo assim uns momentos de pensar em tudo, né? Acho saudável, inclusive. Que a gente se questione sobre o que nos faz melhor e do que é preciso abrir mão, até pra não cair no comodismo doloroso de se aconchegar num lugar que nos impede de crescer.

Aí eu tava lá. Tava quieta, tava calada, tava sozinha. Parece que quando a gente se cala, mas se cala de verdade, todos acham que você não quer falar. Ou que não tem nada a dizer. Ou que precisa de distância. Mas e quando o silêncio é você querendo ser ouvido?

- Vou fazer bem muito silêncio, muito, muito silêncio, tanto silêncio que todo mundo vai ouvir minha ausência, vão se calar pra ouvir junto comigo que o meu silêncio tá desesperado, tá dizendo tanto.

E ninguém ouviu.

Esperar que o outro ouça nosso silêncio é requerer que prestem uma atenção e um cuidado que nem todo mundo está disponível para dar. Não que devessem prestá-los todo o tempo, é que a gente se distrai mesmo. Na própria angústia, dor, alegria, anseio, raiva, desestímulo... A gente se distrai em si mesmo e do outro.

E a gente esperando o outro lá, distraído, vai se contraindo, inquieta. Quieta. É que esperas são árduas e a gente já cansada de se calar...

Um silêncio bem, bem alto às vezes não é suficiente. Decidi que meu silêncio não era audível, mas não porque quem estivesse por perto não quisesse ouvir. Não é que as pessoas não estão disponíveis, que não estão abertas, é que elas também se calaram. Calaram os ouvidos para o que não é paixão, os lábios para o que não for doçura, os dedos para o que não for arrepio, os olhos para o que não for belo, o nariz para o que não for perfume. E a gente que está lá com uma angústia que não é sorriso nem sabor nem fragrância não é percebida. E a gente que está lá com uma angústia que quer ser ouvida não percebe que o outro tá ali oferecendo beleza e músculos relaxados.

Eu falho em notar no outro o que ele não me diz em palavras, sem perceber que ele está me dando todos os sinais no jeito que tomou o café hoje de manhã, quando não riu da piada que eu contei, no olhar disperso fora da janela, no abraço com ombros recaídos, no meio sorriso que se ergue de um lado só. Até o convite que não chega para comemorar o fim de semana me diz do que é preciso ouvir. E eu, que preciso tanto, tanto falar, calei os ouvidos. E ele, que precisa tanto, tanto sorrir, calou as tristezas – inclusive as alheias. E o outro, que precisa tanto, tanto se distrair, calou a atenção. O que a gente não diz, deixa escapar.

Aí outro dia vieram me falar que quem muito guarda o que sente sem compartilhar com os outros compensa a ansiedade comendo. E eu ando mesmo ganhando peso: o peso do não-dito.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ambivalência afetiva



Tinha os olhos borrados
de mágoas
E os lábios manchados
de dúvidas

Na íris, suas palavras
desenharam-se
fervorosas

“Eu te odeio”

No instante que se deu
ele, calado,
sentiu-se amado
como nunca.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Erupção vulcânica


“- Como você se experimenta?”

Violenta. Feito uma dose de whiskey. Escorrego queimando a garganta deixando-me sem controle. Apresento-me ardente em minhas entregas. Excessiva, desgovernada. Volta e meia percebo-me extasiada em minhas emoções abrasadoras. Mas se eu não sei é que eu não sei mesmo e é por não entender – é por não saber – que eu me encho dos vazios. Vazio é não saber, então? Às vezes sinto-me vazia por perceber tão claras minhas convicções e isto desaloja. Viver é não saber; se penso saber, não estou vivendo? Ou talvez esteja confundindo minha condição humana com a minha própria vida e na verdade vivo mesmo enquanto acredito saber, ainda que intimamente reconheça minha impossibilidade de conhecer a verdade das coisas. De mim mesma, que escorrego queimando a garganta, que perco o controle sobre mim.

“- Whiskeys... São os melhores, também os mais caros”.

Quer dizer que vou pagar caro por ser quem eu sou? Se pensar o que eu penso, se fazer o que eu faço, se sentir o que eu sinto, se compreender o que eu compreendo, se ver o que eu vejo, se ser o que e como eu sou, se tudo isto tem um preço: devo ser eu mesma custe o que custar? O que estou perguntando é se eu devo ser a violência com que me atinjo – e acabo assim atingindo os que me cercam. Não tenho propriedade para afirmar com toda convicção: pressione (ou não) o gatilho. Sei que uma vez puxado o gatilho, serei a primeira a ter o próprio sangue pulsando no chão.

Custa-me caro ser eu mesma.

“- Talvez seja o momento de tomar doses menores, então”.

E abrir mão do que é intenso em mim. Do que me vem inteiro. Do que emerge excitante, excitado. Do que me destrói. Das minhas ruínas, nas quais já enxergo meu vício. Deste grito que sou. Deste explodir-se, estatelar-se, estarrecer-se, expandir-se, romper-se. Abrir mão do que se eleva serelepe e decai angustiado.

Abrir mão: soltar os dedos um a um para que se deixe ir o que se segurava. Não é a primeira vez que careço de me deixar de lado para o meu próprio bem. Já disse? Sou um perigo para mim mesma. E aí preciso abrir mão de mim: soltar os dedos – um a um – de maneira a me deixar ir. Mas apenas o suficiente para que se torne saudável ser quem eu sou; e que assim eu possa respirar com tranquilidade e menos palpitações entre as chamas que despejam fora de mim.

domingo, 7 de abril de 2013

Da raiz submersa à beleza dos frutos

Enredado na melodia, sucumbiu. Uma espécie de entrega ao cigarro que não tragava. Fitava-o, apenas. Numa sutileza de aforismos, arrancou-se de si mesmo e encarou a ponta que queimava bonita, reduzindo o papel e o tabaco às cinzas; desfeitos, eram quase nada. Ele era quase nada. Sentiu-se pequeno frente à imensidão de desejos, e quereres, e deveres, e sentidos, e significâncias. Emergiu um breu, calado, sutil.

Na parede mofada, as fantasias todas; os silêncios todos, gritando. A solidão era de uma beleza sem fim, tanto que lhe encarava e lhe apontava as alegrias todas com uma irreverência dos mais livres, dos que se doem de tão entregues a tudo e quase nada. Sorria-lhe debochada, a parede, cheia de vivências pretéritas, também das vivências que, prestes a acontecer, surrupiavam de leve sua tranquilidade.

Decerto havia o que lhe cegava, o que lhe calava, o que lhe tapava os ouvidos e tantas vezes sua própria respiração, mas no tato era capaz de desvendar em si os segredos por ora irreveláveis desta ausência de verdades. Era sutil entregar-se a si mesmo; ainda assim era intenso encontrar-se em sua própria perdição.

E era mesmo no silêncio que se realizava o encontro em que se perdia. No silêncio realizava-se, vivia a si mesmo como a uma experiência espiritual de marcas irreversíveis. Acreditava em sua própria beleza silenciada pela fumaça agora dispersa pelo cômodo. Havia sim um comprometimento com a sua própria imagem, mas na verdade ainda alcançava a coisa em si, como numa dança descoordenada de passos mal ensaiados que enriqueciam o espetáculo. Era beleza, era ternura, era verdade, alcance, entrega. Mas se via como era e era esta sua suficiência. E foi aí que descobriu, afinal:


Trancar-se em si mesmo era de uma liberdade sem tamanho.