quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Por um trisco


Ali, bem no meio,
entalado no asfalto e
ameaçando desfazer,
um risco.

Era só contestação
o olhar que me danava,
mesmo debaixo pra cima,
o tal do risco.

E era óbvio:
queria me provocar,
cheio de si, tinha lá
um desafio a me lançar.

Era só olhar pra ver.

E eu olhei,
pois então eu vi...

Juntei as forças,
todas que tivesse,
pesquei os ares,
todos que pudesse,

Com meia vontade
e meio de migué,
fui lá, encaixei meu pé

ali
bem no meio
na primeira ponta do risco...

Minhas pernas já bambas,
denunciando tanto e
ameaçando desfazer,
mas eu quis nem saber.

Olhei o risco
que me olhou de volta,
mesmo no olho.
Parecia um cisco.

E nessa hora
já não tinha baixo
nem cima,
força, ar, desafio
ou migué...

Mais nada eu vi...

Era eu e o risco.
E eu corri.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tenacidade


     Faz silêncio só em tu não. Tu acha que é assim, é? O barulho dessa cidade ecoa no peito de cada dito, bendito e maldito cidadão que anda por essas ruas aí. Ou tu acha que é especial? Tá achando que o mundo é obra tua? Que é obra pra tu? É não, meu filho, é não! O barulho dessa cidade é silêncio no peito de tudinho. Mas é porque também né, tem quem sinta bom e quem sinta ruim. Eu mesma acho isso bom não. Quer dizer, tem hora, né? Tem hora que é ruim de se lascar, mas tem hora que eu consigo ouvir direitinho, nem parece que é uma dor. É que nem tu, a pessoa nem sabe direito, mas tu tem hora que eu sinto bom e tem hora que eu sinto ruim. Fico é doidinha pra te botar pra fora daqui, que eu não gosto desses negócios de pano mal passado, não. Ou passa direitinho, ou veste amarrotado mesmo! Tem que assumir um lado, né não? Ou tu não acha? Ai, tu me cansa, sabia, tu me cansa! Que negócio de falar bonito como se agisse bonito igual! Tu engana ninguém não, tu que pensa. O enganado aqui é tu, visse, porque fica aí achando que essa cidade não ecoa, como se a cidade não fosse um mundo todinho no meio das coxas e a pessoa lá, tentando andar mesmo assim. Queria só ver mesmo tu andando com o mundo que tem gente que carrega nas coxas... Andava nada, que eu te conheço! Tu ficava era se resmungando pra lá e pra cá, como que esperando que alguém fosse tirar dali um mundo que é teu e que tu botou sozinho mesmo onde ia impedir de andar. Tu, que pensa que cidade não é mundo, deve nem saber que silêncio não é chão! Não é chão que se pise, né? Mas que dá sustento pra tu ficar achando um monte de coisa sem saber de nada, isso dá! O peito inchado parecendo uma doença se expandindo, machucando, acabando com tudo... E tu sustentando o peso todinho em um silêncio que nem é só teu, e tu nem sabe! Mas silêncio não é chão que se pise, viu, e eu vou lhe dizer por que, e é só porque... Se bem que... Mas rapaz, quer saber? Eu vou dizer nada a tu não, é, digo mesmo não! Que é pra tu que acha que sabe tudo desinchar esse peito, tentando, procurando uma resposta. Tu acha que conhece esse teu silêncio, mas ele é só teu não. Faz silêncio em todo mundo nesse lugar! E nem se engane! É um silêncio só! Um silêncio só fazendo esse barulho todinho que ecoa no peito de cada dito, bendito e maldito cidadão que anda por essas ruas aqui. Não, nem diga mais nada! Quero ouvir mais nem um pio.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Tempo Atura

Disserto dores de uma paixão deserta.
A miragem é clara,
a de haver amor.
Irascível é o calafrio
calhando no peito
um terreno baldio,
fora de contexto.
Versam pretextos sobre
o frio calado no estômago,
o calor, o ardor,
o temor e

o amor.

domingo, 27 de setembro de 2015

Caranguejo


Como um susto, des-cubro. Debaixo, há o não-saber. Assustada, não sustento a verdade: desconheço o limite que evita a fusão. Tento que seja meu o que me sustém, e não é. Tento conhecer o que não é meu. O teu é?

Nunca sei.
Por isso o susto.
Por isso assusto.
O meu desconhecimento escurece a visão e não me deixo ver. Ou vejo...

PERCEVEJO. Fincá-lo na pele não confirma suas raízes, mas fere, tatua, sangra na marca que deixa. Se percebo o percevejo, finjo que não vejo. Deixo e me esqueço - não dele; de mim.

Cubro-me.

Debaixo, há o desconfiado que não se pronunciou. O desconfiado em silêncio, o desconfiado em muda-nça. Sustento-me se percebo o manto que me envolve e crio minhas ilusões de segurança, embora seja aqui o único lugar. Coberta, calo as descobertas, mas grito alívios.

POR SI VEJO, há em mim uma terceira pessoa que pede seus devidos pronomes. E se vejo, si vejo cítrica. E se não vejo, agridoce. No paladar, descubro o sabor para me dar. Desvendo-me ao deixar de não me ver.

Estou entre coberta e descobertas. Estou entre deixar de ver e desvendar-me. Entre o percevejo cravado e o por si vejo despertado. Entre o mudo e a dança. Eu lhes asseguro: não estou segura. O limiar é casa de ninguém; e o limite entre ser e te conhecer, perco-o no instante deste limiar. E aí, ou peixe... ou caranguejo-me.

domingo, 30 de agosto de 2015

Ensaio sobre a cegueira


Há sangue no asfalto
Pessoas correm, des-esperadas
Aguardam o disparo que
ensurdece a dor

No contato, não há
tato
Peço teto
Não tem certo

De vasta dor,
a violência
exclama:
há chamas          
em todo o clamor

Gritos, como apitos,
em surda prece
por silêncios, olhos
tidos e perdidos

O caos incongruente
atravessa as ruas
Vai, protege as tuas!
Os guardas despensam
Não refletem a gente

Engradado em casas,
em sua defensiva ilusão
de ótica..
- Mundo, normal tu estás!
E ninguém se retratou,

ou reparou.

domingo, 28 de junho de 2015

(am)arte


vejo o simples
pulsante de beleza
vertido em distorcida face
caricatura de ódio e negação
esquecido de sua arte

há neste sutil abraço
de coração exposto
e peito aberto, descoberto,
a contemplação do caminho
da verdade, do amor
e da vida

do outro lado, há tantos olhos
escondidos em sua verdadeira
distorção, e apontam,
em negação e denúncia,
sua própria incompreensão
do que é belo e que pulsa

vêem perdição
naqueles que só se perdem
em e por amor,
são eles que se perdem, porém!
pensam-se amor, mas
caminham com desprezo

eis o apelo:
baixem as guardas!
silencia teus medos!
enfrenta teus desafios!

pois neste sutil abraço,
além do desejo inócuo
de liberdade e respeito,
para além da sua sede
de empatia e compreensão,
manifestam-se sentidos
de amar

ama-te!
cuida-te!
olha-te!

nutrir por si mesmo
o amor mais puro
transforma-o em beleza
revela-o em humanidade
e se mostra em caminho,
em verdade e em vida

amar-te se desnuda em
magnificente arte,
e cria, e transforma
o amor de si no amar
a todos.

sábado, 4 de abril de 2015

Maria tecia poesia

Não há, nas palavras, como dizer. Só no silêncio. E a necessidade de trans-bordar se retém em linha solta, desordenada.

              Traço um laço, fito a cena, enlaço o corte, descuido da seta.

O mudo revela: há mudanças costuradas em tecido cobre, cobrando atenção para seus ditos, vibrando sua ferrugem desgraçada.

Não há graça.

Maria usa tesoura, usa papel, usa agulha, usa purpurina, usa borracha, usa pedaço de pano, pedaço de papelão, pedaço de vida. Maria não tem palavras, mas tem dizeres. Maria usa do mundo para desusar seus hábitos. E desabita, inábil.

Não há como dizer, mas diz – afastem as palavras que ela quer falar. Tirem de perto as pronúncias que ela assim se manifesta: estática, calada de sons, bordando sentidos de saber e desconhecer. Da borda da calça às bordas das experiências pulsantes de seus dias, Maria trans-bordando negligência cala dores, e amores, e cores, e odores, e pudores para seguir imitando a superficialidade da borda, que não adentra e não se expande, que não se revigora nem transpassa; Maria só diz se for silêncio e não se engraça em habitar.


Nas costuras de vivas passagens mudas, a linha que liga Maria às desarmonias firmemente se prendia de uma borda a outra em uma graça única que havia: Maria sentia poesia nos dias.