quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Incoerente


Se palavras pudessem explicar o que aqui dentro é tão cristalino, talvez pudéssemos cantar uma canção. Nesse deserto absurdamente gelado onde o tudo nunca foi mais que o nada. E de repente, palavras surgidas de um turbilhão de emoções passadas não passam de meras lembranças vagamente remotas de um passado que de fato se foi.

Se ao menos pudéssemos entender o que nos aconteceu no passado, e no mínimo subentender o que nos virá no futuro. Se ao menos tivéssemos essas poucas certezas, teríamos um bom presente. Mas o que temos em mãos agora não se faz suficiente.

A curiosidade é infinita e crucial para aqueles que não possuem respostas. Mas o tempo sempre levará o que, por vezes, insiste em ficar. Não há como evitar. Torna-se inútil agonizar ou opor-se a tal fato. Só nos resta perceber que nada foi em vão. Só me resta contar os dias para essa profunda mudança, antes que eu me esqueça como são os números.

Eu quero te falar, mas eu não tenho como. Como se todo esse frio me congelasse por dentro, congelasse as palavras que possivelmente sairiam se lhes fossem concebidas essa permissão.

É por isso que eu aprecio o céu desta noite. Para encontrar nele as palavras que se perderam aqui dentro. As explicações que em mim estão ausentes, os motivos que não consigo enxergar nessa escuridão. Algum dia talvez a luz se acenda. E quando isso acontecer, pode ser tarde. Talvez eu já tenha mergulhado profundamente demais nessa falta de luz e a prefira a ter as coisas esclarescidas. Mas por enquanto é isso o que vou buscar, é isso que vou temer.

Eu ainda acredito na sinceridade, e eu vou morrer buscando isso, temendo isso.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

With Your Eyes


Do you know what the clock mark right now?
I don’t know too.
This not really cares, is it?
‘Cause I’ve been thinking of not care
About nothing else
If the moon shines in the sky,
I think that I can shine here too.
With your eyes,
Shine with these huge ardent flames in your eyes.
We’ll be then:
the moon and the sun.
Would you like to be my sun?
‘Cause I’d love to serve your ardent wishes,
Your deep love.
It’s for this that the moon exists:
To calm the sun
Tired of shines.
But don’t worry about this.
I won’t let it happens.
I won’t let you delete your flame
And I won’t let you feel tired of shine.
It’s your shine that brings me to life.
Your penetrating and amazing look

Tells me what the life is.

‘Cause your eyes are the size of the moon.

Tradução

Você sabe que horas são?
Eu também não.
Isso realmente não importa, importa?
Porque eu estive pensando em não me importar.
Sobre mais nada.
Se a lua brilha no céu,
creio que posso brilhar aqui também.
Juntamente com os teus olhos,
com essas imensas chamas ardentes nos teus olhos.
Seremos assim, o sol e a lua.
Você gostaria de ser o meu sol?
Pois eu adoraria servir teus desejos ardentes,
tua profunda paixão.
É para isso que a lua serve:
acalmar o sol já cansado de brilhar.
Mas não se preocupe com isso.
Não deixarei que isso aconteça.
Não deixarei que apagues tua chama
E não deixarei que se canses de brilhar.
É teu brilho que me invoca à vida.
O teu olhar penetrante e incrível
que me diz o que é a vida.
Porque seus olhos são do tamanho da lua.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Frases Inacabadas, Felicidades Interrompidas

Era uma noite fria e levemente nublada, seus cabelos longos e loiros esvoaçavam com o vento, enquanto seguia com passos lentos e curtos, em direção à sua casa. Tinha um ar de decepção no seu rosto que qualquer um, até mesmo os menos observadores, notaria. Porém ninguém havia para notá-la. A rua estava absolutamente deserta, ouvia-se apenas o farfalhar das folhas dependuradas das árvores.

Sentindo que não aguentaria chegar ao seu destino, sentou-se sob uma árvore e depôs-se a pensar em toda a sua vida. Lembrou-se de como seu pai a deixou de maneira tão trágica, e como a sua mãe ignorava o fato de sua existência diariamente quando levantava-se e ganhava o mundo, voltando para casa altas horas da madrugada.

Ficou imaginando como seria sua vida se seu pai ainda estivesse ali, acolhendo-a. Mostrando-a como a vida poderia ser bela se a tornássemos. Recitando-lhe lindos versos de seus poetas mais apreciados, que carregavam ótimas lições. Ou quem sabe até caminhando junto com o seu vazio, e tentando preenche-lo.

Ele havia ido embora. Ele e o único homem da sua vida. Um para sempre, outro para nunca mais. Um a abandonou sem querer, outro a deixara sem razão. Acabara de dizer que ainda a amava, mas que porém tinha desejos diferentes dos seus. Mentira. Se a amasse, não a deixaria assim, acabando-se por si mesma, sozinha e sem consolo.

Tornou a lembrar-se do pai. Quanto tempo havia que tinha ido? Uns três anos? Mas o cheiro de tabaco que continha em si constantemente ainda penetrava suas narinas, assim como o desejo de ter aqueles abraços fortes e confortantes envoltos de seu pescoço continuava a invadi-la. Gostaria de só mais uma vez conversar com seu pai, ter um momento feliz onde ele a ensinaria como enfrentar situações como essa. Gostaria de estar com o seu pai naquele momento, para que ele enfim a pudesse fazer sorrir, como só ele conseguia.

Ali, recostada na árvore, permaneceu, e fechou seus olhos, como se isso pudesse amenizar seu desejo tão imediato e torturante.

Ela estava sentada na grama verde-escura observando as cores das flores quando um senhor de idade vestindo uma jaqueta de jeans preto sentou-se ao seu lado e pediu-lhe para acender um cigarro.

- Poderia? – disse-lhe, estendendo o cigarro.

- Claro – respondeu, sorrindo. – Aqui está.

- Desculpe incomodar, é que eu sempre me atrapalho com esses isqueiros – retrucou, dando uma gargalhada rouca.

Ela não podia acreditar. Conhecia alguém que também odiava isqueiros. Alguém com aquela mesma gargalhada rouca, e que usava uma jaqueta de jeans preto exatamente como aquela.

- Pai? – perguntou, com toda certeza da resposta, só por perguntar, esboçando um enorme e repentino sorriso. – Ah pai, você veio!

- Achava mesmo que alguma vez eu te deixaria na mão? – indagou, ao mesmo tempo que respondia ao abraço que a garota lhe despejava. – Minha querida, o que está acontecendo, hein?

- Pai, ele... – não terminara a frase, fora interrompida pelo próprio pai, que agora dava outra gargalhada rouca.

- Mas o que eu estou dizendo? Claro que eu sei o que aconteceu! Ah, minha querida, eu sinto muito mesmo. Sabe, eu conheço aquele rapaz. Ele realmente te ama. Vai voltar.

- Eu acho que não, pai – as lágrimas amontoaram-se em seus olhos, prontas para sair.

- Opa, nada de chorar! Estou com você, não é? Vamos lá, cante para mim.

- Pai! Eu não vou cantar.

- Como é que é? Vai desobedecer ao seu pai? Vamos, cante!

- Qual é, pai? Eu não canto há anos, desde que você se foi e...

- Quem disse que eu me fui? Ora, que conversa maluca. Se eu tivesse ido, não estaria conversando com você, não é mesmo? Agora deixe de enrolar e comece a cantar.

Após uma pausa, percebeu que não tinha nada a perder cantando para o seu pai. Era tudo o que ela queria. Estar ali com ele, e ainda fazendo a coisa que mais gostava.

- Manhã de sol, e nada mais a fazer... além de contemplar você... sorrir enquanto observo... teu belo rosto durante o sono...

- E sinto que nada mais...

- Me faria tão feliz... se não um beijo teu...

- CALE MEUS DESEJOS, OH QUERIDA!

Os dois gargalharam.

- Pai, gostaria de te repetir uma coisa.

- À vontade, OH QUERIDA!

- Sabe, você não é um bom compositor.

- Sabemos, filha, sabemos – sorriram, mais uma vez.

Passado um momento, a filha notou que o sol já começava a se pôr.

- Pai, preciso te perguntar uma coisa.

- O que quiser, meu amor.

- Se você não se foi, se está aqui... Quero dizer... Como sabia o que estava acontecendo? Como que... como que você não se foi?

- Depende do que é ir para você – soltou essa, e permaneceu em silêncio. A garota não parecia querer falar, então o pai tomou a palavra. – Você ainda não entendeu? Eu posso ter ido, mas não fui para você. Tudo isso que está acontecendo agora, está acontecendo apenas para você. Eu estou no seu coração, portanto não fui embora e sei o que você está sentindo.

- Obrigada, pai. Por permanecer em mim.

- Eu que agradeço, filha. Se você não quisesse, eu não permaneceria.

Ao sentir algo lhe envolvendo, a garota despertou do sonho que acabara de presenciar. E ao abrir seus olhos, viu a ele.

- O que está fazendo aqui? – disse, levantando-se do chão da árvore, disfarçando as lágrimas e o cochilo que acabara de ter, deixando que o casaco que acabara de ser colocado sobre ela caísse.

- Você está mesmo perguntando isso? Não achava mesmo que eu te deixaria ir embora, achava? – perguntou o rapaz louro e alto, de fisionomia atraente.

- Eu... você que me mandou embora!

- Não te mandei embora! Longe de mim.

- E o que quis dizer com ‘algo vai mudar definitivamente para nós dois, desejamos coisas avessas e precisamos parar para pensar direito’.

- Eu quis dizer que quero me casar com você. Quero viver toda a minha vida ao seu lado, e isso significa responsabilidade. Mesmo que você não aceite, eu te quero e não vou te deixar ir – disse à garota, enquanto acariciava seu rosto pálido e assustado.

- C-c-como assim? Você disse... você disse... casar? Quer casar comigo?

- Imediatamente, se possível.

Ela esbanjou um sorriso de orelha a orelha e pulou nos braços daquele que a amava, cujo coração lhe pertencia. Agora ela tinha dois corações. O seu próprio, e o de seu amado. Mas havia uma coisa apenas que gostaria de fazer.

- Vem comigo? – disse ao rapaz, ainda sorrindo.

- Se for com você, vou a qualquer lugar.

- Mesmo um cemitério?

- Até à lua.

Segurando-o pelo braço, foi correndo em direção a uma rua larga e cheia de buracos. Faltava calçamento, porém ela não parecia se preocupar com as quedas que ocorreriam até o seu local desejado. Estava com ele. E nada poderia lhe impedir.

Viraram à direita duas vezes e enfim seguiram em frente. Ao avistar o cemitério, correu como se tivesse pressa.

Logo já estavam em frente ao local onde seu pai fora sepultado. Virou-se para o rapaz, e disse:

- E então, trouxe as alianças? – sorrindo.

- Claro, mas... você tem certeza que quer aqui? – respondeu o rapaz, fazendo uma pergunta que viria mais cedo ou mais tarde.

- Absoluta – e selou-lhe rapidamente os lábios. – Ele precisa presenciar. Ele mais que qualquer um.

- Muito bem, então, amor – sorriu, estendendo-lhe a aliança dourada e levemente brilhante. – Aceita casar-se comigo, senhora? Prometo amá-la todos os dias da minha vida, que nem a morte nos separe.

- Aceito – e ao dizer esta única palavra, seus olhos foram preenchidos por lágrimas que insistiam em permanecer presas. – Mas e você, caro senhor... – soltaram risos, quando as lágrimas finalmente caíram – aceitaria casar-se com essa pobre moça? Prometo-lhe te amar eternamente, independente de tudo, até mesmo da morte.

- Seria louco se dissesse que não.

Entrelaçaram os dedos agora com alianças, olharam um nos olhos do outro e aproximaram seus rostos, mais perto um do outro a cada segundo. Seus lábios se tocaram demoradamente. E por mais estranho que pareça, ali permaneceram por quase uma hora, no meio da noite em um cemitério, em frente ao sepulcro do falecido pai da garota. Mas eles se amaram como jamais se houve conhecimento.

sábado, 17 de maio de 2008

Valsa Eterna


Conheço muitos conceitos sobre a saudade, mas nenhum melhor do que o que sinto agora. E, francamente, não é fácil. Sei que triste mesmo é a saudade que nunca acaba, daquele alguém que se foi para sempre, que jamais voltará. Mas que posso fazer se essa dor me invade de tal maneira que mal posso ignorá-la?

O tempo está passando, e as coisas estão acontecendo. É tão rápido. Tão devagar. Sinto cada vez mais os meus planos se afastarem do meu horizonte. Que será que estou fazendo de errado?
Olho para você e nada mais enxergo. E mesmo sem olhar para você, nada mais enxergo. Isso pode me levar a sofrer, mas eu não posso evitar. Sinto vontade de você.
E o tempo continua passando. E eu continuo querendo você. E meus planos continuam fugindo. Responda-me apenas uma coisa: você também sente o mesmo? Sua vontade é a mesma? Você também quer a mim?
Porque se assim for, meus planos talvez funcionem. E eu talvez possa sentir um pouco menos a tua falta. Poderias responder logo? Sabe, tenho pressa.
O relógio não pára com seu tic-tac e eu não paro com meus pensamentos. Os meus desejos estão sempre aqui, muito fortes. Não posso esperar.
Queria que você fosse meu, se já não é. E se for, queria que fosse mais meu. Só meu.
Ignorar completamente tudo o que não podemos ignorar. Esconder de vez tudo o que não podemos esconder. E mostrar tudo o que ainda não mostramos. Sim, eu quero isso. O que você me diz?
Vamos lá, a hora está passando. A saudade está aumentando. Mas o telefone não está tocando, você não está me ligando. Nem uma mensagem. Nenhum sinal. Lembras de mim?
Ó como temo por tua resposta. Ó como espero por ela. Venha rápido, não posso esperar sempre.
Meu coração está tão apertado, tão machucado. Porque a saudade o aperta, a saudade o machuca. E você está ajudando-a. Pare com isso. Não está vendo que não gosto?
Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Isso está irritando. Relógio, poderias te calar? Obrigada.
Minha cama está desarrumada. Não, não consigo parar de me remexer sobre a mesma. E os meus papéis estão todos jogados no chão, há apenas alguns ao meu lado. Junto ao meu porta-retrato. O nosso porta-retrato. O nosso passado.
Veja, poderemos ter um futuro. Você quer? Diga-me: é isso o que você quer? Compartilhar o seu futuro comigo? Eu posso fazer dele uma eterna brincadeira, uma eterna valsa, uma eterna infância. Basta apenas que me respondas se é isso o que você quer.
Viver eternamente ao meu lado. Dançando nossa própria valsa, nossa própria música, nosso próprio amor e nossa própria juventude.
Não terei vergonha. Não terás manchas vermelhas na pele. Teremos apenas o amor, ele sim será vermelho, ele sim terá vergonha.
Nosso salão será prateado, coberto de pétalas de rosas. Todas cor-de-rosa, ou quase. Haverá algumas vermelhas, destacadas. E nossos pés estarão sempre sobre elas. Dançando. Bailando. De um lado a outro. Do outro a um lado.
Parece-me uma boa idéia que tenha algumas pessoas nos assistindo. Assim não estaremos sozinhos. Teremos platéia.
E a saudade não apertará. Mas o tempo continuará a passar. Passar como nossos passos.
Meu cabelo continuará preso, sob uma coroa de flores. E o seu terno preto continuará pequenino. Que tal parece a idéia para ti?
Se tiveres gostado, podemos torná-la realidade. Uma valsa eterna. Uma valsa romântica. Nossa eterna valsa romântica. Entrarás nessa aventura?

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Destino do Casal Entrelaçado

Os dois estavam abraçados. Era um pequeno banco de praça e já passavam das duas da manhã. Não me pergunte há quanto tempo estavam ali, ou com que freqüência o nariz da garota roçava no pescoço do rapaz. Não me pergunte se eram apaixonados, porque isso você poderá descobrir. Pergunte-me apenas o que eu fazia ali, observando um casal entrelaçado em um banco de praça.

Não, eu não sei. Sei apenas que me atraíram. Era interessante a maneira como o olhar dela brilhava e o dele permanecia tão frio. Imaginei logo que ele estaria pensando em deixá-la. Quase fui perguntar. Não o fiz, óbvio.

Não era uma daquelas moças cheias de beleza. A beleza dela não estava em seu rosto, nem em seu cabelo. Estava no seu olhar profundo. Ela parecia ser daquelas donzelas ingênuas cheias de carinho e romance dentro de si. Cheia de vida.

O rapaz não se equiparava à garota. Tinha um charme incrível, e mostrava-se muito atraente, de verdade. Poderia ser até uma boa pessoa, mas eu não gostei dele. Não gostei pois não parecia nem um pouco grato por ter uma menina tão encantadora ao seu lado.

Sinto-me constrangido em dizer que observei por muito tempo. Nada daquilo tinha a ver comigo, eu era apenas um homem curioso tentando descobrir o destino de uma garotinha singela.

Dois minutos se passaram após a minha análise profunda do rapaz, até que ele falou. A menina pareceu levar um susto, mas sorria.

Aproximei-me. Precisava ouvi-los. Precisava saber o que se passava.

Não havia mais ninguém por ali naquela noite, conseqüentemente não precisei chegar muito perto para ouvir o que diziam.

- Eu sei que você me ama de verdade. Desculpe-me por não te demonstrar o mesmo, sim?

O sorriso da garota desapareceu.

- Então você... você não corresponde?

- Claro que sim. Plenamente. Eu só não sei... só não sei...

- Parece-me que pouco sabes.

Ele a olhou nos olhos. Acho que não havia entendido o que ela queria dizer.

- Eu... amo muito você. Mesmo. Nunca me senti tão bem ao lado de alguém.

- Explique-me sua dúvida, então.

- Será que isso real? Sabe... você, eu... parece um sonho.

- E se for? Sonhos também são vividos.

- Eu não penso dessa maneira – ele se recostou no banco, abaixando a cabeça.

- Estou aqui para mudar isso. Estou aqui te mostrando que o sonho é a realidade, desde que nós o façamos ser.

- Você é boa demais para mim – disse, levantando-se. Pegou seu casaco e foi caminhando.

A garota o observava se afastar. Percebi que ela estava em conflito. Acho que estava pensando se valia ou não ir atrás dele. Ela se decidiu rapidamente, pois logo estava ela correndo em busca de quem amava.

Abraçou-o. Lágrimas caíram dos olhos dela. Não foi diferente com ele.

- Por que você não me deixa ir? Será melhor assim.

- Diga-me: você me ama?

- Claro que sim.

- Imagino, então, que não me queres ver no sofrimento. A partir do momento que me deixares, só dele me restará. Preciso de você.

- Eu não posso querer de você. Não torne isso mais difícil.

A mão da garota foi levemente tocando a face do garoto, acariciando muito atentamente sua bochecha. Sorriram, os dois. E eu também. Ela o beijou. Quase chorei eu mesmo com a emoção da cena.

Ao separar dos corpos, o rapaz voltou a sorrir. De repente, os dois gargalhavam.

- Você sabe que eu nunca vou conseguir te deixar, não é? – disse o rapaz, segurando na cintura da moça.

- Eu sempre soube – e seu sorriso se abriu ainda mais.

Não me pergunte o que aconteceu depois. Deixei que o amor deles fluísse, privativamente. Sem espiões.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dois Corações, Uma Última Chance



A lua iluminava claramente no céu, fora da janela. Lua cheia. Bela. Encantadora. Talvez tenha sida ela, a lua, que me fez mostrar o que sentia. Impaciente pela tua resposta, o teu silêncio me matando.

- O que me dizes? – tive que perguntar.

O medo preencheu o meu peito quando percebi em sua expressão a dúvida. Não me amas mais, pensei comigo. Meu coração congelou e quis gritar o teu nome, porém permanecerias imóvel ou me chamarias de louca.

Toquei a tua mão. Continuava tão macia e morna como há um mês atrás. Gostei da sensação confortante de sentir teus dedos entre os meus novamente. Já não me apressava mais pela tua resposta.

Levantaste a cabeça e teus olhos penetravam os meus da maneira mais doce que poderia. Eu quis sorrir, de verdade. Perdoe-me por não te-lo feito.

Percebi quando teus lábios se aproximaram dos meus, tão delicadamente. Por dentro, meu corpo inteiro estava inquieto. Porém permanecia imóvel. Fechei meus olhos, acompanhando os teus que faziam esta ação de maneira tão calma como se tivéssemos toda a vida para aquilo.

Nossos lábios selaram. E lentamente nossas línguas começaram a se entrelaçar. Foi um beijo longo e rápido. Longo pelo tempo que levamos. Rápido pelo desejo de não acaba-lo jamais. Intenso sim, com certeza.

Ao nos separarmos, minha mão ainda tocando a tua, esperei por tuas palavras. Parecia que não viriam. Permanecias indiferente ao acontecimento.

Acariciei tua mão levemente, na tentativa de te encorajar com as palavras. Tinha certeza de que querias falar, só não sabias como fazê-lo. Nunca soubeste.
Confortantemente, senti os teus braços me envolverem. Um abraço tão forte e apertado. Pareceu-me que tentavas ter certeza de que era isto o que querias, os meus braços aos teus, os meus lábios aos teus, e o nosso amor assim, todo nosso.

Desvencilhou-se de mim lentamente, e deixei-me fazer o mesmo. Logo, olhando profundamente em meus olhos e com os lábios aparentemente secos e hesitantes, ainda reunindo as palavras que diria, proferiu:

- Eu sempre te amei – vi pela primeira vez uma lágrima cair de teus olhos.

Dessa vez o beijo foi muito mais longo. O abraço muito mais apertado. O desejo ainda mais crescente. E a noite uma criança.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Os Pedaços de um Coração


Meu coração começou a desmanchar tão de repente que não tive tempo suficiente para segurar os pedaços que caiam à minha frente até chegar ao solo. Sentei-me próxima aos pedaços caídos e logo fiquei a observar como cada um se encaixava no outro tão perfeitamente. Porém eu pude notar que havia um pedaço faltando ali, e notei com facilidade pois o pedaço não era, nem que mal observado, pequeno.
Toquei o espaço que estava faltando uma parte de meu coração, e ao fazer isso senti algo no meu peito. Algo como uma dor. Pus a mão sobre o buraco que eu havia acabado de perceber que faltava lá.
Alguma coisa me transpassou pelo corpo de forma inexplicável e sem capacidade de entendimento, mas eu pude sentir que era real. Não era bom, mas era real. Acho que era algum tipo de sentimento me invadindo. Um sentimento desconhecido.
Não me sentia bem com aquilo dentro de mim. Parecia-me com angústia. Ou quem sabe, decepção. Mas eu poderia chamar também de raiva. Era uma incógnita, mas eu não queria decifrar.
Meus olhos fechados. Talvez pela forte dor que me invadiu e tornou como impulso o fechar de meus olhos, talvez porque todos aqueles meus sentimentos pedissem que eu os fechasse. Mas era como se eles permanecessem abertos, porque eu senti uma outra presença naquele local que eu não sabia onde era. Outra pessoa estava ali comigo, eu só não a via.
Fui abrindo os meus olhos não tão facilmente. Havia olhos me observando. Olhos que pareciam não ver, observavam apenas.
Sob aqueles olhos bonitos, havia um belo e cauteloso sorriso. Seja quem fosse que estivesse junto a mim naquele momento, tinha belos olhos e um sorriso encantador.
Quando finalmente pude abrir meus olhos completamente, notei que era uma mulher. Aparentava ter bastante experiência, porém tinha um ar jovem que lhe tornava ainda mais bela. Como se ela já tivesse tido muitas decepções ao longo da vida, mas o fato de estar viva, ter passado por tudo e ainda manter a esperança e a alegria em si tornasse-a uma vencedora.
Fiquei observando por um tempo como ela me contemplava. Sorri também. Em tentativa de passar a ela a mesma segurança que ela estava me fazendo sentir.
Porém esse bem-estar que ela me fez sentir durou pouco. Durou apenas até que eu pudesse notar que ali no chão jazia um coração despedaçado. O meu coração, todo despedaçado.
Logo pude sentir que as lágrimas que eu não derramava havia tempos estavam ali novamente, caindo descompassadamente. Tornaram-se soluços.
A mulher não sorria mais, havia percebido a cena. Certamente percebeu o que eu estava sentindo também, porque de acordo com que meus soluços e lágrimas iam aumentando ela parecia ficar triste.
Ela tocou em minha mão. E ao fazer, despertou-me a vontade de abraçá-la, mesmo sem conhecê-la realmente. Não o fiz. Talvez por medo. Porém acho que não, algo nos separava.
Eu não estava mais chorando. Ainda havia lágrimas que não tinham acabado de escorrer pelo meu rosto, mas o meu desespero não estava mais presente. Quase sorri ao vê-la me observar tão profundamente sem ter nenhuma reação.
Ela soltou a minha mão de leve, após um tempo me observando. Fez um sinal para que eu olhasse para o meu coração ali partido no chão. Só pude fazê-lo porque ela me transmitia segurança. Aquele coração me mostrava o que eu preferia não ver. Coisas boas, que se tornavam ruins por não serem mais presentes em minha vida.
Quando baixei o olhar para um dos pedaços, ele estava sendo reajustado ao outro pedaço partido ao lado. Logo, a mulher tocou em outro pedaço e o arrastou para próximo do que tinha acabado de montar, muito lentamente. Acho que no final ela pretendia junta-lo inteiramente.
Parecia-me uma tentativa em meio ao vão. Um pedaço ali faltava. Um pedaço que eu não sabia sua verdadeira localização nesse momento, porém sabia onde ele estava. Onde deveria estar.
Continuei observando até que ela pôde juntar todos os pedaços. Ainda faltava um pedaço ali. Como ele bateria novamente sem o pedaço que lhe faltava? Não questionei para que ela pudesse ouvir, só para meu próprio pensamento.
Vi quando ela colocou o coração no espaço vazio dentro do meu peito. Toda a dor que eu sentia estava amenizada. Não por completo.
Olhei-a, e antes que pudesse agradecer, ela me disse:
- Este pedaço será reconstituído com o tempo. Não tenha pressa. A vida trata dos nossos vazios de tal maneira que nem nós mesmos faríamos.
Emocionei-me com aquelas palavras. Eram bonitas. Sábias.
Toquei no local em que meu coração havia acabado de ser recolocado por uma desconhecida sábia, e sorri. Abracei-a. Sem medo, dessa vez.
Levantei-me e saí. Agradecendo-a por tudo que havia me feito, apenas em pensamento. Ela só me observava afastar-se, pulando e segurando nas mãos a esperança de que tudo mudaria.