domingo, 11 de janeiro de 2009

Mortos-Vivos Ou Vivos-Mortos


São espelhos que nada refletem e tudo desejam. São águas que não correm, porém caminham calmamente em direção ao nada. São palavras que não fazem sentido e dizem tudo. São rostos cheios do cansaço do dia-a-dia e repletos de empolgação perante à vida. São malucos sem insanidade, donas-de-casa que não sabem como trabalhar, abrigos solitários e vazios.

São doentes que querem viver e vivos desejando a morte. São zumbis que assombram um sono, fantasmas que buscam liberdade. São casas abandonadas em busca de real companhia. São mais palavras desembrenhadas que procuram por alguma organização.
São desejos inexplicáveis, fontes inexploráveis, assuntos inimagináveis.

São humanos – fracos, irrevogáveis, alucinados e tentadores. São animais – quietos e selvagens. São parasitas – prontos para aniquilar o que vier a atrapalhar as suas vidas – vivendo do outro, nunca para o outro.

São estradas nunca antes conhecidas, mesmo com toda a familiaridade. São ordens sem imperialismo, vontades sem profundidade. São tudo o que nos resta, e tudo o que nos falta.

São tudo. Ou nada. Mas são.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Companhia


Pegue minha mão. Está na hora de mergulhar no imensurável oceano do desconhecido. E não importa mais se será fácil ou doloroso, desde que seja com você, será o melhor. Agarre-se em meus dedos e segure-se enquanto puder. Não vá, fique. Agarre-se a mim, agarre-se ao nosso ser.

Eu te amo em cada singelo detalhe e nada do que possa acontecer futuramente mudará nem uma parte do que sinto aqui dentro – tão forte, tão verdadeiramente.

Abrace-me e venha sentir a brisa em nossas faces desconsertadas. Vamos contemplar a visão da lua brilhante que nos encara tão serenamente. Temos de caminhar. Seguir nosso destino e rezar por nosso bem-estar.

O que eu realmente preciso é você comigo. E mesmo que não seja a todo o tempo, em meu coração não deixarás de ficar um só segundo.

Apenas abrace-me e mantenha-se em silêncio. Nossos olhares nos dizem tudo o que não cansamos de repetir. O meu coração jamais se calará diante de você.

Não me deixes. Eu sempre te levarei comigo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Let It Be


Chegou e caminhou direto ao banheiro, deixando em seu caminho a pequena bolsa que levava pendurada no ombro esquerdo. Trancou a porta e começou a tirar a roupa. Tirou tudo o que vestia, deixou apenas a roupa íntima inferior. E as lágrimas vieram, mas vieram como nunca antes. Exageradamente apressadas e apressadamente exageradas. Em ritmo veloz e irrefutável. Ela abraçou as lágrimas como abraçaria a um amigo.

Deitou-se no chão enquanto pensava em tudo o que a havia levado àquele estado, tudo o que vinha acontecendo em sua vida e não lhe deram um por que. Ela nem ao menos soubera o que havia feito de tão absurdamente ruim para merecer tamanho buraco em seu peito.

As lágrimas não paravam, vinham mais e mais aceleradas. Ela apertava os olhos na tentativa de enxergar algo, mas tudo o que podia ver era a água doce que escorria dos seus olhos e deslizavam até seus lábios, desmanchando-se ali.

Eram doces. Sim, eram. Incrivelmente doces. Incrivelmente dolorosas e saborosas.
Abraçou seu próprio corpo e sentiu como se fosse a única com o desejo de fazê-lo. A única que realmente se importava com ela mesma. A única que faria de tudo por tudo. Afinal, alguém deveria mesmo se sacrificar por ela? Será que por que ela amava e protegia aos que amava com tudo o que podia significava que também deveriam fazer isso por ela? Será que era hipocrisia demais que ela pensasse assim? Ou seria naturalmente perdoável, considerando a humanidade daquela garota?

Ela nunca saberia responder. A única coisa que sabia é que ela realmente queria isso – queria que se sacrificassem por ela, que provassem afeto e a protegessem como se fosse a única na vida de alguém -, e não se importava de verdade se isso era certo ou errado. Não havia escolha, tomando sinceridade.

O desejo mais súbito e ridículo que lhe surgiu em vida aparecera. Tratou de apertar as mãos com toda a força que pôde, na tentativa maluca de fazer com que suas unhas entrassem fundo o suficiente em sua carne para fazê-la sangrar, fazê-la sentir dor maior que a que invadia seu peito constantemente – e com mais força agora.

Depois de usada toda a sua força, olhou para as próprias mãos. Nenhum estrago real havia sido feito. As marcas de suas unhas estavam fincadas na pele de suas mãos, mas não era nada que não sairia um pouco depois – nada que abafasse a sua dor.

A inércia tomou conta de seu corpo. E as lágrimas saíram ainda mais rápidas e intensas do que é possível imaginar. A raiva invadiu cada brecha de vida ali existente, cada organela de cada célula de cada parte do seu corpo. E ela começou a arranhar, tentando arrancar a própria pele do corpo, fazer sangrar, fazer doer. Qualquer dor era melhor que aquela. Qualquer uma.

Foi se arranhando com toda a força que podia. A raiva crescendo a cada segundo que passava. Passou a puxar os próprios cabelos e bater a cabeça no chão. Tentou de todas as maneiras mais malucas que lhe surgiu causar-se dor. Nada adiantou. Nada era forte o suficiente. Nada doía o bastante. Mas ela continuou. Deu gritos abafados e chutou o chão, várias vezes. Deu socos na parede e tapas em seu próprio rosto.
Nada adiantava. Nada lhe doía mais. Nada lhe machucava tanto.

Ela desistiu – ou quase. Deitou-se completamente de novo e pôs-se a derramar mais lágrimas. E chorou, chorou o quanto pôde. E lhe surgiu uma idéia.

Talvez se seu coração parasse de bater, isso não doeria tanto. A morte não lhe parecia tão cruel naquele momento. Parecia uma amiga. A única amiga realmente desejosa de lhe ajudar.

E, sem pensar exatamente no que estava fazendo, levantou-se. Pegou a gilete nas mãos e tremeu. Não sabia como se fazia isso. Não sabia se tinha coragem, mas não quis pensar. Estendeu a gilete ao pulso esquerdo e pressionou com toda a força que conseguiu reunir, que não era muita. Não conseguia movê-la. Apenas deixou-a escorregar pelo seu pulso fazendo um corte leve, que não parecia querer sangrar. Então ela sentiu a dor. Era o que ela queria: a dor.

Não se sabe se ela sempre soube que não teria coragem de fazer isso, nem mesmo ela sabe. Mas ela ainda estava chorando. E não era pelo corte em sua mão, ainda era a dor no peito. Pensou mais uma vez em tirar sua própria vida, aquela que lhe fora dado de bom grado, sem que fosse desejada. Ela ainda tinha toda essa inocuidade. Ainda tinha tanto para descobrir e viver. E, apesar de tudo, havia alguns que lhe amavam e que realmente se sacrificariam por ela. Então, deveria ela se sacrificar por quem não faria o mesmo?

Segurou a gilete com mais força e decidiu apenas fazer sangrar, fazer doer. E pressionou com mais força, dessa vez não tremia. Apenas pressionou e arrastou para o lado, sentindo as lâminas cortarem sua pele. Quando viu, começou a sangrar. Nada de mais, mas ela viu sangue. E talvez tenha gostado da dor, porque tentou novamente. E o sangue saiu mais uma vez, a dor apertou um pouco mais.

A dor ainda não era bastante. Nada comparada à sua real dor. Mas ela queria esse masoquismo agora. Estava gostando da dor irritante ardendo em seu braço, fazendo-a se preocupar menos com uma dor maior. Cortou-se mais algumas vezes, quem sabe por diversão – uma diversão sombria, na verdade.

Levantou-se. Ainda com lágrimas no rosto. Olhou-se no espelho e viu a figura mais deplorável. Não era a feiúra, os cabelos despenteados ou os olhos inchados, era o estado de espírito. O estado de espírito mais deplorável que já vira, em descrente decadência.

Sentiu nojo de si mesma. Vontade de cuspir na figura que lhe olhava bem em frente. E tapeou-se, repetindo a ação depois. E chorou mais.

Após um longo momento contemplando a própria figura no espelho, tocou as próprias feridas externas. O sangue já estava seco, petrificado ali sobre os seus cortes. Beijou a própria mão e disse:

- És meu sangue. Minha vontade de viver agora. Não pare de correr pelas minhas veias – e as lágrimas vieram novamente, deslizando sobre sua face já ensopada e avermelhada -, preciso de você.

Tomou um banho quente e rápido e, dando de ombros, decidiu ir viver...

sábado, 22 de novembro de 2008

Gritos de Esperança


Continuo gritando por dentro. O mais alto dos gritos, o mais audível para as almas. Uma alma gritante, é a minha. E se quiser saber o motivo de tanto barulho, não me pergunte. Apenas venha calar aquilo que não queres ouvir. Apenas venha tapar os buracos que estão vazios. Venha preencher o que me falta, aquilo que você deixou alterar.

Não, não demore, por favor. Sabe o que eu acho? Que todo o tempo do mundo pode ser tempo demais para quem espera. E eu ainda estou esperando. Eu acredito que as pessoas mudam, se elas quiserem. Se você quiser, nós podemos voltar a ser como éramos – apenas felizes. Partes um do outro, partes que se completam.

Eu não gosto de estar sozinha, mas se for a minha única opção, garanto que não vou hesitar. Mas permita-me fazer um último apelo. Deixe-me penetrar no vazio da tua alma e arrancar a sensibilidade aí existente. Eu sei que existe. Por mais bem escondida que esteja, por mais bem disfarçada que permaneça, está aí. Você também tem um coração. Certa vez eu vi lágrimas em seus olhos, e isso talvez prove o bastante.

Se lágrimas são a chave da alma, por que tu te trancas? Eu não minto quando digo que é melhor a liberação das emoções. Na verdade, eu sequer costumo mentir. Minha sinceridade está acima do que eu chamo de possível, então eu gostaria que você acreditasse em mim, nas minhas palavras, no meu pouco senso. Eu adoraria que você me olhasse nos olhos e me pedisse perdão por estarmos errados. Eu juro que compreenderia, eu juro que te responderia.

Olhe só para mim, estou quebrada. Inteiramente quebrada. Já é fato que eu não vivo sem você. Já é fato a falta absurda que você me faz, o quanto eu preciso de você. E mesmo que isso não seja recíproco – e você não sabe o quanto dói -, eu quero você ao meu lado.

Talvez seja egoísmo. Ou humildade. Eu realmente não me preocupo em saber. Pecados ou virtudes não fazem parte das minhas prioridades. Minha prioridade é o amor, é o amar. E de alguma maneira, eu amo você. Não o amor dos amantes nem dos irmãos. Não é fraterno ou apaixonado. Mas é amor. Está aqui e eu sinto. E eu quero. E eu preciso.

Não demore, por favor. Eu ainda estou aqui. Eu sempre ainda estarei aqui. Mas não demore. O coração é sozinho para agüentar demais. Não sou tão forte quanto talvez tenha parecido ser. Então não demore. Venha, me abrace e diga que você ainda está ao meu lado, que ainda é meu amigo, que nós precisamos um do outro e assim permaneceremos. Diga-me aquelas três palavras. Diga-me o que é necessário.

Apenas não demore. Meu coração não está em si de tanta dor.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Imóvel e Intocável



Estou me quebrando lentamente, morrendo lentamente. Você pode me ouvir? Pode ouvir meus pedaços caírem? São apenas meus sentimentos sem sentido. Eles vão se calando cada minuto mais. Estou perdendo completamente os sentidos. Será que isso vai demorar?

Esse que chamam de coração, que quase não vejo, que quase não sinto, invoca algum nome. Muito devagar e quase inaudível. É o teu nome. Não, não o chame. Ele quer ir, deixe-o. Está na hora de acabar-se por si mesma. Deixar que todos os teus pedaços tornem-se lembranças. Deixar que tudo o que você é, ou julga ser, vá embora sem um motivo real. Nada, é o que sinto. Mas não há mais nada a se fazer sobre esse desfazimento de humanidade própria. Desfazimento de princípios e certezas. Sobrou-me apenas a loucura. A loucura para, junto com o meu nada, governar o meu ser. Ou o meu não-ser.

Mudanças... Não estavam previstas.

Espere um pouco. Apenas o suficiente para que eu me acostume com a idéia de acabar com isso. Tudo à minha volta mais me parece um nada. Estou morrendo, e você só me assiste cair aos poucos. Está tudo bem, eu vou esperar para vê-lo novamente.

Desejos que habitam minha mente provam que nada mais faria sentido se senso houvesse. Então eu esqueço das minhas vontades e me preparo para as mudanças. As mudanças ou a morte. Acho que vou optar por não optar. Escolher a não-escolha.

Estou indo por esse caminho aqui, mais leve, ainda que de mesmo peso. Eu vou seguir. E vou morrer, um dia. Mas nada vai me impedir de catar os meus pedaços no chão.

domingo, 5 de outubro de 2008

Dolorosa Espera


Eu poderia ir ao seu encontro agora, se já não fosse tão tarde. E pensando melhor deve ser claramente doloroso conhecer você assim tão jovem como sou. Há tanta vida pela frente e eu sequer sei o que esperar.

Mas sempre que me deparo com os meus próprios reflexos não há nada que represente uma pessoa completa – não é como se eu não precisasse de você, mesmo jovem. Eu também sou jovem para estar assim tão cheia de vazios. Mesmo que isso não pareça fazer sentido, eu estou sentindo mais do deveria. De qualquer forma, não é como se realmente fizesse sentido. De fato não faz.

Eu posso observar através dessa lua tão gigante e minúscula aqui na minha janela, tão bem recortada e colada diante desse papelão azul chamado céu, que nada faz sentido enquanto você procura respostas. Eu não estou desesperada por elas, não desesperada. Mas estou mesmo curiosa. Realmente desejosa.

Não vejo como possibilidade viver sem entender, mesmo que seja assim como eu vivo. Nunca entendi nada, e ainda assim procuro respostas. Em vão, é. Mas eu vou continuar procurando-as, ao menos me ocupo durante a minha busca por você.

Estive tão ansiosa para encontrá-lo. Gostaria que entendesse. Não sou assim tão sozinha quanto pareço, realmente tenho companhia. Porém eu quero a sua, você entenderia? Estou faminta por você. Isso não deveria ser um problema, mas é. Eu posso ver em meus olhos o tamanho deste problema que cresce gradativamente à medida que meu coração se aperta.

Definitivamente eu nunca fui muito observadora. Mas isso é notório. Atravessa-me tão vastamente que eu quase não consigo sentir, pelo exagerado espaço que ocupa. Penetra em cada célula que insiste em trabalhar no meu corpo. E mesmo que eu esteja observando a lua tão claramente, isso não parece me acalmar. Não verdadeiramente.

Ainda que com esse desejo profundo de te ver, conhecer teus olhos e tua forma, saber o que se sente ao te tocar... eu sei que posso esperar. Será realmente difícil, mas eu sou capaz – pelo menos disso.

Eu tenho essa esperança especialmente quando observo a lua – tão descuidadamente quanto somente eu consigo fazer. Mas ela me sorri, então nada mais importa. A lua sorri para mim por saber exatamente o que estou sentindo. E ela, colada ali, presa àquela estampa azulada, conhece em cada detalhe a eternidade. E é dela que nós tratamos agora.

Presa ali, a lua consegue ver tudo o que eu sinto. Consegue sentir comigo cada batida ritmada do meu coração. Pode claramente ler meus pensamentos como se fossem um simples folheto em que se trata de algum assunto banal. Afinal, meus sentimentos são todos banais e é deles que meus pensamentos são feitos.

Parada aqui, observando a lua colada ali, posso te sentir por aí. Tão profundamente, tão inutilmente, sinto você. Sei que posso te esperar. Essa espera não será agradável, mas é precisa.

Então eu olho para a lua e digo a ela, sem necessariamente pronunciar as palavras, que te avise o quanto te espero e a desnecessidade de pressa. É engraçado o poder do destino, e vou deixá-lo ser poderoso sem me tornar impaciente. Serei grata por tudo o que ele me fará, enquanto relato à lua meus banais sentimentos.

Estarei te esperando, até a última brecha de esperança que restar em mim. Mas não se esqueça de vir. A esperança pode ser a última a morrer, mas isso não a torna imortal. Eu estarei esperando e sei que você virá. Talvez falte muito, ou só o suficiente. Mas você virá.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Pólos Opostos


O norte e o sul deveriam ser meus limites, mas eu estou totalmente ilimitada. Sorrisos não me surpreendem, olhares já não me agradam. Estou apenas esquecendo e modificando tudo aquilo que poderia ser verdadeiro.
Já não sou mais, não espero mais, não vejo mais. Vivo me ignorando enquanto o norte e o sul me aguardam desesperadamente.