segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ambivalência afetiva



Tinha os olhos borrados
de mágoas
E os lábios manchados
de dúvidas

Na íris, suas palavras
desenharam-se
fervorosas

“Eu te odeio”

No instante que se deu
ele, calado,
sentiu-se amado
como nunca.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Erupção vulcânica


“- Como você se experimenta?”

Violenta. Feito uma dose de whiskey. Escorrego queimando a garganta deixando-me sem controle. Apresento-me ardente em minhas entregas. Excessiva, desgovernada. Volta e meia percebo-me extasiada em minhas emoções abrasadoras. Mas se eu não sei é que eu não sei mesmo e é por não entender – é por não saber – que eu me encho dos vazios. Vazio é não saber, então? Às vezes sinto-me vazia por perceber tão claras minhas convicções e isto desaloja. Viver é não saber; se penso saber, não estou vivendo? Ou talvez esteja confundindo minha condição humana com a minha própria vida e na verdade vivo mesmo enquanto acredito saber, ainda que intimamente reconheça minha impossibilidade de conhecer a verdade das coisas. De mim mesma, que escorrego queimando a garganta, que perco o controle sobre mim.

“- Whiskeys... São os melhores, também os mais caros”.

Quer dizer que vou pagar caro por ser quem eu sou? Se pensar o que eu penso, se fazer o que eu faço, se sentir o que eu sinto, se compreender o que eu compreendo, se ver o que eu vejo, se ser o que e como eu sou, se tudo isto tem um preço: devo ser eu mesma custe o que custar? O que estou perguntando é se eu devo ser a violência com que me atinjo – e acabo assim atingindo os que me cercam. Não tenho propriedade para afirmar com toda convicção: pressione (ou não) o gatilho. Sei que uma vez puxado o gatilho, serei a primeira a ter o próprio sangue pulsando no chão.

Custa-me caro ser eu mesma.

“- Talvez seja o momento de tomar doses menores, então”.

E abrir mão do que é intenso em mim. Do que me vem inteiro. Do que emerge excitante, excitado. Do que me destrói. Das minhas ruínas, nas quais já enxergo meu vício. Deste grito que sou. Deste explodir-se, estatelar-se, estarrecer-se, expandir-se, romper-se. Abrir mão do que se eleva serelepe e decai angustiado.

Abrir mão: soltar os dedos um a um para que se deixe ir o que se segurava. Não é a primeira vez que careço de me deixar de lado para o meu próprio bem. Já disse? Sou um perigo para mim mesma. E aí preciso abrir mão de mim: soltar os dedos – um a um – de maneira a me deixar ir. Mas apenas o suficiente para que se torne saudável ser quem eu sou; e que assim eu possa respirar com tranquilidade e menos palpitações entre as chamas que despejam fora de mim.

domingo, 7 de abril de 2013

Da raiz submersa à beleza dos frutos

Enredado na melodia, sucumbiu. Uma espécie de entrega ao cigarro que não tragava. Fitava-o, apenas. Numa sutileza de aforismos, arrancou-se de si mesmo e encarou a ponta que queimava bonita, reduzindo o papel e o tabaco às cinzas; desfeitos, eram quase nada. Ele era quase nada. Sentiu-se pequeno frente à imensidão de desejos, e quereres, e deveres, e sentidos, e significâncias. Emergiu um breu, calado, sutil.

Na parede mofada, as fantasias todas; os silêncios todos, gritando. A solidão era de uma beleza sem fim, tanto que lhe encarava e lhe apontava as alegrias todas com uma irreverência dos mais livres, dos que se doem de tão entregues a tudo e quase nada. Sorria-lhe debochada, a parede, cheia de vivências pretéritas, também das vivências que, prestes a acontecer, surrupiavam de leve sua tranquilidade.

Decerto havia o que lhe cegava, o que lhe calava, o que lhe tapava os ouvidos e tantas vezes sua própria respiração, mas no tato era capaz de desvendar em si os segredos por ora irreveláveis desta ausência de verdades. Era sutil entregar-se a si mesmo; ainda assim era intenso encontrar-se em sua própria perdição.

E era mesmo no silêncio que se realizava o encontro em que se perdia. No silêncio realizava-se, vivia a si mesmo como a uma experiência espiritual de marcas irreversíveis. Acreditava em sua própria beleza silenciada pela fumaça agora dispersa pelo cômodo. Havia sim um comprometimento com a sua própria imagem, mas na verdade ainda alcançava a coisa em si, como numa dança descoordenada de passos mal ensaiados que enriqueciam o espetáculo. Era beleza, era ternura, era verdade, alcance, entrega. Mas se via como era e era esta sua suficiência. E foi aí que descobriu, afinal:


Trancar-se em si mesmo era de uma liberdade sem tamanho.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Des-ata-me


Calaram-se os lábios 
o peito desatou a falar.
Sem pausas
nem palavras
O nó desfeito desata o peito.
O peito desnudo
desata sem dó
a dor calada
Se calado o peito,
desata o nó e
desfaz a vida
Sobre os lábios ternos
de pausas e palavras, enfim
o silêncio interno
eterno

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"Amor verdadeiro" é conversa fiada


Sempre que alguém fala em "amor verdadeiro" e se dispõe a enumerar características que o definem, a minha língua começa a coçar de um jeito, só na vontade de sair questionando tudo em que a pessoa acredita. Não me entenda mal a pensar que eu não acredito nessa coisa às-vezes-linda do amor. Talvez não seja atrevimento dizer que é quase minha religião. Mas se tem uma coisa em que eu não acredito é num conceito pré-estabelecido de amor. 

Amor não é metafísica, não assim. Talvez “meta” e “física” tenham mais sentidos no amor assim separados, desconectados, em frases diferentes até, se é que você entende o que quero dizer, mas acho mesmo é que amor não tem sentido algum. Inútil procurar. A gente vai dando uns sentidos aqui, outros acolá, mas sabe lá o que está por trás disso tudo. Se sequer tem um atrás, uma frente, dois lados, nenhum, vai saber. Quem tenta saber com certeza já está meio desesperado no meio disso tudo. Vamos combinar que angustiante é mesmo, isso de não saber. Classificar tudo é nosso jeitinho de achar que se está entendendo, sem saber mesmo é de nada.


Pois pra mim? Cada um com seus amores, isso sim. É cada uma!


Não vou abrir a boca pra falar que “amor de verdade é assim”, que “quem ama mesmo faz desse jeito” ou “isso não é verdadeiro” porque, nossa, quem determinou como as coisas deveriam ser mesmo? Aposto que quem entendia era nada. Eu que também não entendo prefiro me recolher e reconhecer que estou limitada apenas a sentir – e já me basta. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ninho


Que eu me aninhasse em teus braços
Feito pássaro assustado
Feito assim sem espaço
Que fosse longe do teu coração

Que eu me envolvesse em teus cabelos
Feito se envolve em cobertor
Feito se deparasse com o amparo
Que afasta as dores e odores e o torpor

Que eu me encantasse em teus olhos
Feito teu olhar fosse só meu
Feito fosse teu o olhar meu, erradio
Que te canta e contempla sutil

Que eu me enganasse em tuas palavras
Feito fossem mais do que foram
Feito soubesse menos do que sabia
Que até me permitisse acreditá-las

Que eu soubesse de teu passado
Feito quem lhe tivesse sido uma falta
Feito quem lhe teria sido presente
Que se desembrulhava pra te acompanhar

Que eu me debruçasse em teu peito
Feito fosse eu o cansaço do mundo
Feito foste tu o meu ninho
Que eu, feito passarinho
Da viagem em busca de sustento
Retornasse pro meu alento
Para só em teu seio, sossegar

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Chama


- Tu tá diferente.
- Diferente?
- É.
- Diferente como?
- Não sei, diferente.

Silêncio.

- Mas diferente de quê?
- Hm, como é mesmo o adjetivo que usei mais cedo? Apagado. Tu tem estado apagado.
- Apagado? Feito lâmpada e fósforo?
- É. Mais feito fósforo do que feito lâmpada.
- Por quê?
- O fósforo se acende de vez assim e quando vai se apagando queima o dedo.
- Sei...
- É...

Silêncio.

- Mas eu queimo o dedo de quem?
- Você sabe.
- O seu?
- Até que me atinge inteiro no corpo.

Silêncio.

- Então sou chama?
- É. Só que não me chama mais.
- Acho que apaguei.
- Acho que eu te apaguei.
- Não, eu apaguei. Mas não quis queimar seu dedo.
- Mas me queimou inteiro.
- Desculpa.

Silêncio.

- Outro dia. Agora tenho que cuidar de onde você feriu.
- Tudo bem, a gente se vê então.
- A gente se vê.

Silêncio...