domingo, 15 de junho de 2014

Quereres

Estava acordado fitando o relógio, a parede, a porta, qualquer coisa... Só pensava no quanto eu queria dormir; merecia, precisava. Repetia “quero dormir quero dormir quero dormir”, incessantemente. E era uma mentira descarada, deslavada, eu já sabia: queria mesmo era tua ligação, feito em tantas madrugadas, pra gente viajar falando sobre nós dois até subitamente se perceber discutindo a relação entre política e religião, ou tudo mais que não se deve discutir.

Tu me meteu numa enrascada, e eu fico feito idiota te colocando a culpa só pra não assumir que eu estava mesmo muito a fim de cair nesse buraco e me ralar todo, sair ferido e orgulhoso. Já não podia ser diferente, a gente fez tudo quanto não se deve fazer e agora que tá tudo feito, ficam as reminiscências, e as dúvidas, o que eu deveria, o que eu poderia, o que eu queria... Mas nada tá presente, nem embrulhado, nem bonitinho. Restou uma saudade estúpida, uma vontade de escarrar e cuspir da janela, mas ninguém tá aqui pra reparar meus atos dramáticos que querem responder a qualquer coisa que não se nomeia, mas precisam falar; pareço criança insatisfeita com o brinquedo que ganhou de Natal.

Eu fico me enganando sobre quereres e vontades, tudo pra ignorar o que eu quero de verdade, que é jogar verdades na sua cara. Não que eu as tenha, mas queria tê-las. Sair cheio de razão enumerando tudo o que você precisa ouvir e engolir em seco, mas eu que engulo e tá seco mesmo porque não sei o que te falar. As certezas são de que você precisa ouvir, e de que eu preciso falar, e de que eu quero te ouvir, quero que tu fale, mas aí eu te calaria com um beijo, colaria tua testa na minha, seguraria teu cabelo e não ia saber me aguentar de coisa sentida, coisa vivida, coisa que pulsa.

Mas é bem assim que eu imagino te reencontrar. Vou ignorar meu constrangimento pela testa suada e vou querer te colar bem perto de mim, vou querer te trazer pra tão perto, vou querer entrar dentro de você, por um momento ser você, e colar no teu pescoço pra gravar teu cheiro na memória, na pele, na saudade, e beijá-lo como se fosse matéria, como se fosse tu. Não faz sentido pensar no quanto eu queria te falar tanta coisa, se eu quero teu silêncio colado na minha nuca, num abraço, na gente por mais tempo que quero tuas palavras, pelo menos tempo suficiente pra sincronizar minha respiração com a tua e eu esquecer que tenho raiva, que tenho mágoa, que tenho medo – ainda.

Tenho uma saudade alimentada por não ditos, nascida em tudo o que nos dissemos, e que vai crescer cuidada por silêncios e faltas. Vai dar um problema danado isso daí. Quero nem pensar no tanto de coisa que uma saudadezinha, coisa que parece tão pequena, assim, só uma, quero nem pensar no estrago que a bicha faz. E eu tô tratando feito bicho mesmo, coisa que eu tenho que cuidar, aninhar, alimentar e levar ao médico; que quando eu chego do trabalho, já vou olhando pra ela assim, com carinho, e ela saltitante chegando perto, só faltando me dizer “até que enfim você vai ter tempo pra mim”, e eu quieto sem querer dizer que queria me manter ocupado sem precisar cuidá-la.

Vou acabar te encontrando na padaria, de bermuda e regata, com meus olhos recém-acordados e descuidados, e tu lá, bonitinha feito a porra, com um jeito muito teu de ganhar minha atenção, vai me desejar “Bom dia!” como se não tivéssemos jamais compartilhado intimidades, experimentado limites e desafiado vontades. E eu, com meu ar despreocupado, ferido e orgulhoso, vou disfarçar o que em mim vai fervilhar, vai gritar, vai acordar e estremecer; estarrecido, vou agir com tranquilidade; inquieto, vou aparentar controle; as pernas bambas estarão firmes e o sorriso torto parecerá natural. Vou dizer nada do que queria, não vou roubar teu cheiro nem te colar comigo. Serei a mais perfeita atuação da indiferença, e tu, talvez atuando, talvez sincera, vai receber o troco, dar um último sorriso e as costas.

E tu vai embora, amarrando a bolsa de pão. E eu vou ficar lá, com uma saudade desamarrada e, na garganta, tudo entalado, sem descer de tão seco, repetindo que a culpa é tua – pra não dizer que sou a vítima de mim mesmo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Eu cometi um erro


Eu cometi um erro.

Primeiro, houve a relutância. “Não, mas é porque quando eu me deparo com a situação X, eu reajo de maneira Y! É o meu jeito, não sei ser diferente!”. Eu me defendi de mim mesma. “As pessoas precisam me entender como eu sou!”.

Em seguida, os julgamentos dos conhecidos. Que não sabem muito, mas frequentemente parecem acreditar que “como utilizar o dedo indicador” é saber o bastante. “Ele sempre age assim”, “Ela deveria se encontrar antes de fazer essas coisas”, “Você viu que ele fez exatamente o que disse que não faria?”, “Ela nunca toma boas decisões!”...

Os amigos também falaram. Disseram de maneira sutil, mas quiserem dizer o mesmo: que um erro fora cometido. “Você errou”.

É engraçado como as palavras “sempre” e “nunca” costumam aparecer nos discursos de quem fala sobre alguém. E, às vezes, de quem fala sobre si mesmo. Mais engraçado é como a gente parece saber “A Resposta” – o que deveria ter sido feito, o que daria melhores resultados, o que significa agir deste ou de outro jeito, como seria mais plausível que alguém (ou a gente) tivesse adotado uma postura diferente, e às vezes o diferente tem uma só vírgula de distinção do que, de fato, houvera.

Como a gente parece saber o que é certo e errado a se fazer.

Digamos que se saiba, de fato, que atitudes são certas e erradas... Estive me perguntando o que me faz sentir que posso falar deste Outro, que não conheço além do que me mostra, com tal propriedade que, diante de suas atitudes, reconheço-me no direito de dizê-lo A Verdade: que ele não sabe o que é melhor para ele mesmo. Presumir que sei o que se deve ser feito é imediatamente concluir que todos os outros (ou, no mínimo, boa parte deles) não sabem. Afinal, reconhecendo que temos maneiras distintas de pensar um mesmo assunto, jamais caminharíamos pela mesma estrada – ainda que, por vezes, chegássemos ao mesmo ponto final ou nos cruzássemos no meio do caminho.

Agora vamos pressupor que cada um desenvolve seus próprios conceitos de certo e errado e, embora acredite neles, não estende sua crença aos outros ao ponto de criticá-los caso discordem entre si. Quando considero que errei, por que todos me ensinam a me martirizar por meus erros, como se isto fizesse de mim um monstro?

Eu não sou um monstro.

E eu erro.

Perceber meus erros me torna humana. Refletir acerca de suas implicações em minha vida (e na de outros) me torna ainda mais humana. Repensar minhas posturas diante do mundo me faz sentir o ser humano que eu sempre quis ser.

Mas nem sempre eu percebo. Às vezes eu me recuso a refletir. Repensar pode parecer, muitas vezes, a última das coisas que eu quero e/ou preciso fazer. Sou imperfeita.

Poucas foram as vezes em que chegaram pra mim e disseram: “eu cometi um erro”. Poucas vezes eu o disse em voz alta. Mas consigo me lembrar de várias vezes em que eu e/ou outras pessoas nos posicionamos diante de outros e, mais vezes ainda, a respeito de outros, simplesmente para apontar o que consideramos ter sido um equívoco, pouco empáticos.

Nós erramos.

Eu erro.

O que me intriga é que eu me coloque em posição de criticidade constante a respeito das atitudes de outras pessoas e, quando se trata de mim, que eu ou deixe passar sem reflexão boa parte do que eu poderia ter feito de melhor ou me cobre demais sobre as posturas adotadas.

Cheguei à conclusão, diante de meus devaneios desorganizados, que a gente precisa respirar mais devagar e encarar tudo com menos seriedade. Que eu preciso respirar devagar e oferecer (a mim e a quem me cerca) um pouco mais de leveza. Defeitos sempre teremos, equívoco é até saudável que a gente permaneça cometendo, mas extrair de cada vivência o máximo de consciência que se puder é um desafio que eu quero travar comigo mesma. Já consigo imaginar a quantidade de coisas lindas que posso colher na minha vida se, ao invés de procurar saber, eu procurar me conscientizar – e, num processo todo meu de abertura, passar a compreender mais do que explicar.

Sim, eu erro. Não sou um monstro, sou imperfeita. Quero continuar imperfeita e sentir que, em cada deslize, eu sou capaz de reconhecer menos verdades e mais do Outro, mais de mim, do mundo. Que, a cada voo ocasionando quedas, eu possa aprender a cuidar melhor de meus arranhões e oferecer a mão aos que também estiverem machucados. Que haja sangue pulsando em cada ferida, sinceridade nas lágrimas de cada choro, compreensão nas incoerências de cada uma de minhas dores e honestidade em todas as minhas fraquezas. Apesar dos mantos que nos cobrem ensinando a máscara da fortaleza, quero mergulhar na água límpida que lava as certezas e me recobre de dúvidas.


Imperfeita, eu sou mais humana. Humana, eu sou mais de quem eu sempre quis ser. Sim, eu erro. Quem eu quero ser também erra. Mas não, eu não sou monstro algum.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Mudas danças


Entre danças,
o passo teme

Mudo,
o passo dança

Tremendo,
o passo anseia
se possuo o posso
de um passarinho

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Caleidoscópio


Estou frequentemente observando a maneira como as pessoas olham umas para as outras - nos sentidos todos que a palavra “olhar” pode adquirir. O que me surpreende é que se vejam dentro de um caixote onde não caberiam coisas demais: como, por exemplo, diferentes características; aparentemente contraditórias, porém não necessariamente excludentes. Pressupõe-se imediatamente que uma pessoa deve ser boa ou ruim, generosa ou egoísta, sensual ou delicada, inteligente ou estúpida, extrovertida ou quietinha. Mas aí se a gente sair reparando nas pessoas do nosso cotidiano, as pessoas reais, que não são o vilão da história ou a mocinha da novela, percebe-se que a realidade foge desta dualidade de “ou uma coisa, ou outra”.

O que somos vive em trânsito. Não consigo lançar sobre as pessoas um olhar estático de permanência: “você é e sempre será uma coisa ou outra”. Não. Eu sou o que eu quiser quando eu quiser ser. Às vezes sou o que eu não quero, meio sem querer, mas não me cabe o sempre. Você também. Somos situações e nossas reações às mesmas, e nossas ações sobre as mesmas, que são diversas. Esperar que de um substantivo germine sempre o exercício de um mesmo adjetivo é limitar sua compreensão do que virá a se mostrar do outro.

Somos livres para dizer “sim” e “não” aos nossos anjos e demônios. Para pensar antes em si mesmo, dizer a verdade e guardar um segredo. Plantar uma árvore e roubar uma flor. Tentar escalar uma montanha e passar o dia de pijama na cama. Contar uma mentira no primeiro de abril e em dezessete de julho. Abrir mão de uma vontade pra não magoar alguém e fazer o que deseja apesar de alguém. Escrever uma carta de amor e outra de ódio. Ouvir canções alegres e outras melancólicas. Querer atenção e não querer ninguém. Ser silêncio e ser discurso. Caminhar devagar e correr apressado. Só falar depois de ouvir e não ter paciência pra nem mais uma palavra. Para ser abertura ou não.

É que o outro é o outro, mas pode ser tantos outros quantos forem possíveis imaginar – e outros tantos mais. É que eu sou eu, mas posso abarcar tantos outros quanto eu posso imaginar – e tantos mais -, e todos os outros serei eu do mesmo modo imensurável. Que a gente não se limite a achar que somos menos do que tudo o que somos nesta oscilação de estados em que nos apresentamos inconstantes, imperfeitos, inacabados. Transitivos (que, em vão, tentam intransitivar), somos uma combinação de reflexos coloridos que se constitui diferente a cada movimento. Somos caleidoscópio.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ilus(traç)ão

Contemplava o espelho, em cacos, dolorosamente espatifado à sua direita. Achou bonito – os pedaços dispostos, desorganizados, refletiam sua imagem, em desarranjo. Espalhados como estavam, não lhe davam a ilusão de conhecer seu próprio rosto inteiramente. Via-se em alguns cacos, outros, virados ao avesso, não lhe representavam – os outros sim? – e questionava-se até que ponto se sabia como era.

Não sabia.

Talvez seja esta sua maior limitação (e desordem): não saber e, ainda assim, revoltar-se contra o que (acha que) sabe. O espelho era a ilusão da qual não queria se abster. Em cacos, ainda significava mais – o espelho - do que se não houvesse nada. O nada assusta, angustia, inquieta, não lhe deixa adormecer. O algo era preciso – o espelho era algo.

Acocorou-se.

Como se aproximar de si mesma se estava presa à sua imagem? Era esta sua prisão. Acorrentada ao que acredita ser, afasta-se de quem é. Seria necessário que se desaprendesse de si mesma – que seu autorreconhecimento acontecesse no “nunca” ao invés do “sempre”. Que se largasse, que se rompesse, que se destoasse, que se despercebesse.

Os cacos refletiam sua imagem, estilhaçada e incorreta, mas não lhe representavam. Ela não era os cacos dispostos no chão, confusos, imperfeitos. Ela não era a imagem que se formava despedaçada. Ela não era o espelho - o espelho não era o que lhe restava, era só o resto do que se parecia ser. O resto, às vezes, sequer faz parte do todo.

Livrar-se do espelho ainda não era a solução. Era preciso que encarasse o nada que se mostraria como o que havia de mais precioso em si mesma, o tesouro que encontrara em Si. Que se visse como quem não se enxerga para que fosse além do que alcançaria. Para que não mais houvesse o medo de que os cacos a definissem. Para que a imagem distorcida, ainda que falha, não fosse mais o seu conforto, a mentira à qual se agarra, temerosa que cair seja mais devastador do que é capaz de aguentar.

Não seria. Ela que seria...

Ela era reticências – e este nome ainda era deveras vago se para representar sua totalidade.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Abertura para (re)conhecer(se)

Eu tava ali muito dentro de mim mesma, presa naquilo que eu tinha a me oferecer ou precisava. Tava até separando o que é “dentro de mim” do que é “fora de mim”. A gente tem mesmo assim uns momentos de pensar em tudo, né? Acho saudável, inclusive. Que a gente se questione sobre o que nos faz melhor e do que é preciso abrir mão, até pra não cair no comodismo doloroso de se aconchegar num lugar que nos impede de crescer.

Aí eu tava lá. Tava quieta, tava calada, tava sozinha. Parece que quando a gente se cala, mas se cala de verdade, todos acham que você não quer falar. Ou que não tem nada a dizer. Ou que precisa de distância. Mas e quando o silêncio é você querendo ser ouvido?

- Vou fazer bem muito silêncio, muito, muito silêncio, tanto silêncio que todo mundo vai ouvir minha ausência, vão se calar pra ouvir junto comigo que o meu silêncio tá desesperado, tá dizendo tanto.

E ninguém ouviu.

Esperar que o outro ouça nosso silêncio é requerer que prestem uma atenção e um cuidado que nem todo mundo está disponível para dar. Não que devessem prestá-los todo o tempo, é que a gente se distrai mesmo. Na própria angústia, dor, alegria, anseio, raiva, desestímulo... A gente se distrai em si mesmo e do outro.

E a gente esperando o outro lá, distraído, vai se contraindo, inquieta. Quieta. É que esperas são árduas e a gente já cansada de se calar...

Um silêncio bem, bem alto às vezes não é suficiente. Decidi que meu silêncio não era audível, mas não porque quem estivesse por perto não quisesse ouvir. Não é que as pessoas não estão disponíveis, que não estão abertas, é que elas também se calaram. Calaram os ouvidos para o que não é paixão, os lábios para o que não for doçura, os dedos para o que não for arrepio, os olhos para o que não for belo, o nariz para o que não for perfume. E a gente que está lá com uma angústia que não é sorriso nem sabor nem fragrância não é percebida. E a gente que está lá com uma angústia que quer ser ouvida não percebe que o outro tá ali oferecendo beleza e músculos relaxados.

Eu falho em notar no outro o que ele não me diz em palavras, sem perceber que ele está me dando todos os sinais no jeito que tomou o café hoje de manhã, quando não riu da piada que eu contei, no olhar disperso fora da janela, no abraço com ombros recaídos, no meio sorriso que se ergue de um lado só. Até o convite que não chega para comemorar o fim de semana me diz do que é preciso ouvir. E eu, que preciso tanto, tanto falar, calei os ouvidos. E ele, que precisa tanto, tanto sorrir, calou as tristezas – inclusive as alheias. E o outro, que precisa tanto, tanto se distrair, calou a atenção. O que a gente não diz, deixa escapar.

Aí outro dia vieram me falar que quem muito guarda o que sente sem compartilhar com os outros compensa a ansiedade comendo. E eu ando mesmo ganhando peso: o peso do não-dito.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ambivalência afetiva



Tinha os olhos borrados
de mágoas
E os lábios manchados
de dúvidas

Na íris, suas palavras
desenharam-se
fervorosas

“Eu te odeio”

No instante que se deu
ele, calado,
sentiu-se amado
como nunca.