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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Se se ser se é


Sou contraditória em tudo que sou. Alcanço ambas as extremidades, mas me recuso a intermediar. Não nasci para o equilíbrio: sou inteira exageros. Os excessos que fazem de mim meu verdadeiro eu. É a falta de controle que me deixa livre justamente para me libertar.
A confusão que se remexe em mim é meu caminho à autocompreensão. Organização me bagunça. Preciso do desposicionado para me encontrar em minha verdade. Com o que todos não compreendem, eu me identifico e à sua complexidade me entrego. Sou entrega.
Não sei ser o que é e sempre será. Sou o constantemente mutável e irregular, a mudança, a verdade do efêmero, a incerteza do eterno, o falso da ilusão. Não sei ser o determinado, as regras, os valores sociais, aquilo em que todos se encaixam. Sou demais divergente, de diversas formas incoerente, para me dispor ao que se vê. Não sou o visto.
Sou o acanhado e o espontâneo, o incontrolável que em algum momento se retém, o falante que cala, o disperso que atenta, a dor em que se banqueteia. Sou tudo o que não sabem que sou, sou pouco do que julgam que eu seja. Mas sou. A certeza é que sou.
E de onde vem essa sensação de ser? Esse sentido de existir? Essa verdade em respirar? A certeza é que sou. Sei que sou, mas não sei como trançar o intrínseco nem como desvelar o não revelado.
Sou contraditória em tudo que vivo. Sou o oposto do que me é e a essência do que não sei que sou. Sou confusão que não se compreende senão ao não ser compreendida. Sou o nada que não se enxerga e o tudo que pensam ver. A certeza é que sou, todo o resto pode não ser mais.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Receios


É tarde demais, espero que entenda. Preciso ir embora o quanto antes, ainda que não seja esse o meu desejo. Não é que eu não queira estar ao seu lado, eu apenas não consigo lidar com a incerteza.

A vida me atinge com mais intensidade. Eu posso enxergar além do evidente. Leio as linhas que você vem tentando encobrir. Estou soterrando as palavras que você não diz. Acabarei de uma vez com isto, antes que comece.

O teu olhar ainda me diz algo em que estou impossibilitada de acreditar. Não posso correr o risco de crer nas tuas inverdades. Eu não vou depositar a minha fé no que há tempos deveria ter sido esquecido.

Vamos caminhar um pouco e eu posso te explicar o meu mundo. Entrelace seus dedos nos meus e seja atencioso. Você poderá perceber o motivo da minha fuga, o motivo pelo qual constantemente fujo de seus braços, por mais que ali desejasse estar.

Deves partilhar da ideia de que sou insana, incoerente. É bem provável que eu seja. Se tu puderes ignorar minhas distorções, minha falta de nexo, eu seria capaz de deixá-lo adentrar em minha vida.

É tarde, bem tarde. Em minhas veias já pulsa o desejo de possuir a amabilidade de seu sorriso. O meu sono está repleto de seus olhares. No meu riso, posso ouvir o anseio por sua companhia queimar minha garganta e gritar a sua aproximação. Já não posso fazer muito pela minha salvação. O meu egoísmo não parece funcionar dessa vez.

Talvez. É a resposta para todas as questões que me bagunçam. Diga-me o que fazer com toda essa ambiguidade. Gostaria que solucionasse parte disso. Quero que venha e me bagunce você mesmo. Ou apenas me deixe ir.

Você deve tomar conhecimento dos segredos do meu mundo, os mistérios que envolvem quem eu sou. Deslize suas mãos pela minha silhueta e deixe os seus olhos fincarem-se nos meus. Desnuda-me com a fatalidade dos seus lábios. Desvende os enigmas que há tanto tenho ocultado. Agora é a sua vez de observar a minha conduta.

E de tudo o que você consegue enlaçar com a sua habilidade, faça de mim a sua mais adorável e presunçosa conquista, o presente que você escolheu receber. Ou apenas me deixe ir...