terça-feira, 23 de abril de 2013

Erupção vulcânica


“- Como você se experimenta?”

Violenta. Feito uma dose de whiskey. Escorrego queimando a garganta deixando-me sem controle. Apresento-me ardente em minhas entregas. Excessiva, desgovernada. Volta e meia percebo-me extasiada em minhas emoções abrasadoras. Mas se eu não sei é que eu não sei mesmo e é por não entender – é por não saber – que eu me encho dos vazios. Vazio é não saber, então? Às vezes sinto-me vazia por perceber tão claras minhas convicções e isto desaloja. Viver é não saber; se penso saber, não estou vivendo? Ou talvez esteja confundindo minha condição humana com a minha própria vida e na verdade vivo mesmo enquanto acredito saber, ainda que intimamente reconheça minha impossibilidade de conhecer a verdade das coisas. De mim mesma, que escorrego queimando a garganta, que perco o controle sobre mim.

“- Whiskeys... São os melhores, também os mais caros”.

Quer dizer que vou pagar caro por ser quem eu sou? Se pensar o que eu penso, se fazer o que eu faço, se sentir o que eu sinto, se compreender o que eu compreendo, se ver o que eu vejo, se ser o que e como eu sou, se tudo isto tem um preço: devo ser eu mesma custe o que custar? O que estou perguntando é se eu devo ser a violência com que me atinjo – e acabo assim atingindo os que me cercam. Não tenho propriedade para afirmar com toda convicção: pressione (ou não) o gatilho. Sei que uma vez puxado o gatilho, serei a primeira a ter o próprio sangue pulsando no chão.

Custa-me caro ser eu mesma.

“- Talvez seja o momento de tomar doses menores, então”.

E abrir mão do que é intenso em mim. Do que me vem inteiro. Do que emerge excitante, excitado. Do que me destrói. Das minhas ruínas, nas quais já enxergo meu vício. Deste grito que sou. Deste explodir-se, estatelar-se, estarrecer-se, expandir-se, romper-se. Abrir mão do que se eleva serelepe e decai angustiado.

Abrir mão: soltar os dedos um a um para que se deixe ir o que se segurava. Não é a primeira vez que careço de me deixar de lado para o meu próprio bem. Já disse? Sou um perigo para mim mesma. E aí preciso abrir mão de mim: soltar os dedos – um a um – de maneira a me deixar ir. Mas apenas o suficiente para que se torne saudável ser quem eu sou; e que assim eu possa respirar com tranquilidade e menos palpitações entre as chamas que despejam fora de mim.

domingo, 7 de abril de 2013

Da raiz submersa à beleza dos frutos

Enredado na melodia, sucumbiu. Uma espécie de entrega ao cigarro que não tragava. Fitava-o, apenas. Numa sutileza de aforismos, arrancou-se de si mesmo e encarou a ponta que queimava bonita, reduzindo o papel e o tabaco às cinzas; desfeitos, eram quase nada. Ele era quase nada. Sentiu-se pequeno frente à imensidão de desejos, e quereres, e deveres, e sentidos, e significâncias. Emergiu um breu, calado, sutil.

Na parede mofada, as fantasias todas; os silêncios todos, gritando. A solidão era de uma beleza sem fim, tanto que lhe encarava e lhe apontava as alegrias todas com uma irreverência dos mais livres, dos que se doem de tão entregues a tudo e quase nada. Sorria-lhe debochada, a parede, cheia de vivências pretéritas, também das vivências que, prestes a acontecer, surrupiavam de leve sua tranquilidade.

Decerto havia o que lhe cegava, o que lhe calava, o que lhe tapava os ouvidos e tantas vezes sua própria respiração, mas no tato era capaz de desvendar em si os segredos por ora irreveláveis desta ausência de verdades. Era sutil entregar-se a si mesmo; ainda assim era intenso encontrar-se em sua própria perdição.

E era mesmo no silêncio que se realizava o encontro em que se perdia. No silêncio realizava-se, vivia a si mesmo como a uma experiência espiritual de marcas irreversíveis. Acreditava em sua própria beleza silenciada pela fumaça agora dispersa pelo cômodo. Havia sim um comprometimento com a sua própria imagem, mas na verdade ainda alcançava a coisa em si, como numa dança descoordenada de passos mal ensaiados que enriqueciam o espetáculo. Era beleza, era ternura, era verdade, alcance, entrega. Mas se via como era e era esta sua suficiência. E foi aí que descobriu, afinal:


Trancar-se em si mesmo era de uma liberdade sem tamanho.