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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Diferentes dimensões do eu

Eu sou profunda. Tenho uma imensidão dentro de mim, tão vasta que ninguém jamais abraçou. Tudo o que há por dentro não sabe cair fora e se torna um tudo inquieto, um tudo que quer explodir e se expandir e ir embora de uma vez por todas, mas não consegue. É um tudo que é demais. É muito, mas muito mesmo. E ainda que venham e observem, ninguém realmente vê. Todos julgam conhecer, mas só sabem a respeito do envoltório que guarda esse tudo. E quando esse tudo estremece, o envoltório fica fraco, e as pessoas que vêem não conseguem entender a mudança, ainda que desejem. Isso porque, mesmo que o envoltório seja fraco, ele é bom no que faz. E o que ele faz é conter. Conter o tudo que há por dentro. E assim ninguém encontra o tudo que é tanto.

Às vezes vem uns que dizem “mas eu entendo”. Claro que não entendem. Ninguém entende o tudo porque o tudo é demais. E faz parte de mim, portanto ninguém pode vê-lo completamente. Por isso é bom que não achem que me compreendem porque não, não compreendem. Eu pareço ser um livro fácil de ser lido, mas estou cheia de ironias que ninguém percebe.

E enquanto todos ignoram a complexidade de quem sou, eu me desmancho. E sou tão frágil às vezes. Tão frágil que as pessoas acham que isso é sinônimo de simplicidade. Mal sabem que o mundo por dentro é maior, maior que tudo o que já experimentaram. E quando esse mundo está em guerra, todos recebem um pouco dessa falta de paz. Porque tudo, tudo é demais - e sempre acaba escapando.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Incoerente


Se palavras pudessem explicar o que aqui dentro é tão cristalino, talvez pudéssemos cantar uma canção. Nesse deserto absurdamente gelado onde o tudo nunca foi mais que o nada. E de repente, palavras surgidas de um turbilhão de emoções passadas não passam de meras lembranças vagamente remotas de um passado que de fato se foi.

Se ao menos pudéssemos entender o que nos aconteceu no passado, e no mínimo subentender o que nos virá no futuro. Se ao menos tivéssemos essas poucas certezas, teríamos um bom presente. Mas o que temos em mãos agora não se faz suficiente.

A curiosidade é infinita e crucial para aqueles que não possuem respostas. Mas o tempo sempre levará o que, por vezes, insiste em ficar. Não há como evitar. Torna-se inútil agonizar ou opor-se a tal fato. Só nos resta perceber que nada foi em vão. Só me resta contar os dias para essa profunda mudança, antes que eu me esqueça como são os números.

Eu quero te falar, mas eu não tenho como. Como se todo esse frio me congelasse por dentro, congelasse as palavras que possivelmente sairiam se lhes fossem concebidas essa permissão.

É por isso que eu aprecio o céu desta noite. Para encontrar nele as palavras que se perderam aqui dentro. As explicações que em mim estão ausentes, os motivos que não consigo enxergar nessa escuridão. Algum dia talvez a luz se acenda. E quando isso acontecer, pode ser tarde. Talvez eu já tenha mergulhado profundamente demais nessa falta de luz e a prefira a ter as coisas esclarescidas. Mas por enquanto é isso o que vou buscar, é isso que vou temer.

Eu ainda acredito na sinceridade, e eu vou morrer buscando isso, temendo isso.