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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Incoerente


Se palavras pudessem explicar o que aqui dentro é tão cristalino, talvez pudéssemos cantar uma canção. Nesse deserto absurdamente gelado onde o tudo nunca foi mais que o nada. E de repente, palavras surgidas de um turbilhão de emoções passadas não passam de meras lembranças vagamente remotas de um passado que de fato se foi.

Se ao menos pudéssemos entender o que nos aconteceu no passado, e no mínimo subentender o que nos virá no futuro. Se ao menos tivéssemos essas poucas certezas, teríamos um bom presente. Mas o que temos em mãos agora não se faz suficiente.

A curiosidade é infinita e crucial para aqueles que não possuem respostas. Mas o tempo sempre levará o que, por vezes, insiste em ficar. Não há como evitar. Torna-se inútil agonizar ou opor-se a tal fato. Só nos resta perceber que nada foi em vão. Só me resta contar os dias para essa profunda mudança, antes que eu me esqueça como são os números.

Eu quero te falar, mas eu não tenho como. Como se todo esse frio me congelasse por dentro, congelasse as palavras que possivelmente sairiam se lhes fossem concebidas essa permissão.

É por isso que eu aprecio o céu desta noite. Para encontrar nele as palavras que se perderam aqui dentro. As explicações que em mim estão ausentes, os motivos que não consigo enxergar nessa escuridão. Algum dia talvez a luz se acenda. E quando isso acontecer, pode ser tarde. Talvez eu já tenha mergulhado profundamente demais nessa falta de luz e a prefira a ter as coisas esclarescidas. Mas por enquanto é isso o que vou buscar, é isso que vou temer.

Eu ainda acredito na sinceridade, e eu vou morrer buscando isso, temendo isso.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Solitude


A sala estava vazia, exceto pela pequena e doce garotinha sentada no canto. Ela não entendia o mundo, por isso chorava desesperada, procurando respostas para perguntas não-formuladas. Só o que podia sentir era o cheiro de hortelã vindo do lado de fora da porta.
Era um cheiro agradável e atraente. Talvez ela pudesse verificar o que havia por trás daquela porta marrom, com traços antigos e escuros, porém o medo estava ao seu lado. E se encontrasse algo ruim para si? Se houvesse terror por trás daquela porta?
As respostas não vinham. A luz também não. A única brecha de claridade estava distante, no teto acima da porta.
A amável menina agarrou o urso de pelúcia que trazia consigo, deixando cair do pescoço peludo dele o laço cor-de-rosa. Olhou fixamente o laço caído ao chão e soltou o urso, ao mesmo tempo que puxava o laço para perto de seus olhos, analisando seu nó. Talvez o mundo fosse um laço, pensou consigo mesma.
Tão enrolado, porém bem trançado. Confuso. Bonito.
Desatou o nó, na tentativa de desvendar os mistérios do mundo, da vida. Evidentemente não descobriu nada. Não chorava mais, entretanto seus olhos ainda cintilavam as lágrimas derramadas.
Deitou-se encolhida. Sentiu frio, e desejou ter um cobertor próximo ali. Mas a garotinha não o procuraria, havia medo sobre ela. Medo do que mais pudesse haver naquele quartinho escuro.
Logo ela desejou novamente saber o que havia por trás daquela porta. O que havia lá que a fazia ter medo? Ela não sabia, e tinha medo de saber.
Sem perceber, suas mãos se movimentaram. Tocaram sua própria face como se fosse a de um desconhecido. Será que ela mesmo teria se trancado ali ou o mundo a expulsou dele?, pensava consigo.
De súbito, sentou-se. Olhou ao redor, tentando enxergar algo. Agora, o quarto parecia um pouco mais claro, não o suficiente para deixa-la enxergar completamente, sem dúvida alguma.
Fechou os olhos levemente, seu queixo quase tocando o busto. Abriu as mãos e se abraçou fortemente, esperando sentir algo especial. Sorriu, pela primeira vez em muito tempo.
Sua risada ecoou pelo quartinho vazio e sem luz, fazendo-a parar assustada. Quem está aí?, perguntou em voz alta. Ouviu as suas próprias palavras soarem mais algumas vezes. Sentiu-se aterrorizada novamente, pensou no mundo.
Em algum momento ela saberia que mistério havia atrás da porta? Em algum momento lhe mostrariam os segredos da vida? Quais eram esses segredos? Quem os tinha? Por quê tudo vazio?
De repente a resposta para uma de suas perguntas veio à sua cabeça. Ela não descobriria nada se não atravessasse aquela porta. Ela não saberia os segredos que a esperavam do outro lado. Não mataria sua curiosidade se não espantasse o medo. Jamais seria respondida se não buscasse de fato saber as respostas.
Ficou de pé. Ao tentar ir em direção à porta, cambaleou e caiu. Chorou, sentiu suas esperanças se esvaindo. Começou a soluçar, sentindo-se um fracasso, achando-se uma inútil, incapaz. Suas lágrimas cessaram no instante em que o cheirinho de hortelã veio com mais força. Ouviu um barulho mais parecido com melodia.
Sorriu. Dessa vez não teve medo quando sua própria risada ecoou pelo quarto. Agora ele parecia evidentemente mais claro.
Ela caiu, mas e daí? Poderia se levantar, não poderia?
Agora sua vontade de atravessar a porta e descobrir de onde vinha aquele delicioso aroma e a sinfonia melodiosa era muito maior, muito incontrolável.
Levantou, ainda sorrindo. Caminhou até próximo da porta. Quando seus dedos encostaram no trinco da porta, seu coração acelerou. Giraram devagar. Finalmente. Finalmente saberia de tudo. Finalmente suas dúvidas seriam esclarecidas.
Abriu a porta muito lentamente. Uma forte luz veio rapidamente. Seus olhos brilharam, seu sorriso ainda mais abertamente irradiava, seu coração disparado.
Era ali o seu lugar. Era ali a sua felicidade. Era ali o fim do mistério que lhe atormentara tão profundamente. Era ali. O lugar. As respostas.
A luz.