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domingo, 28 de junho de 2015

(am)arte


vejo o simples
pulsante de beleza
vertido em distorcida face
caricatura de ódio e negação
esquecido de sua arte

há neste sutil abraço
de coração exposto
e peito aberto, descoberto,
a contemplação do caminho
da verdade, do amor
e da vida

do outro lado, há tantos olhos
escondidos em sua verdadeira
distorção, e apontam,
em negação e denúncia,
sua própria incompreensão
do que é belo e que pulsa

vêem perdição
naqueles que só se perdem
em e por amor,
são eles que se perdem, porém!
pensam-se amor, mas
caminham com desprezo

eis o apelo:
baixem as guardas!
silencia teus medos!
enfrenta teus desafios!

pois neste sutil abraço,
além do desejo inócuo
de liberdade e respeito,
para além da sua sede
de empatia e compreensão,
manifestam-se sentidos
de amar

ama-te!
cuida-te!
olha-te!

nutrir por si mesmo
o amor mais puro
transforma-o em beleza
revela-o em humanidade
e se mostra em caminho,
em verdade e em vida

amar-te se desnuda em
magnificente arte,
e cria, e transforma
o amor de si no amar
a todos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O mundo precisa de amor



Parecia que o mundo todo precisava de amor, mas ninguém estava disponível. Ou ninguém sabia amar. Ou ninguém queria amar. Ou só não conseguiam entender. Mas tudo exalava cansaço, havia em tudo uma ausência intraduzível, impossível de não enxergar. Por toda parte, havia mãos soltas desejando afagos, corações lerdos pedindo velocidades maiores, sorrisos dispersos querendo se firmar. O tempo todo, por toda parte.

Os que passeiam pelas ruas, em meio a tanta gente mergulhada em seus próprios propósitos e anseios, esquecem. Qualquer um esquece que não é o único. Não percebem que são, entre os outros, mais alguém pedindo atenção, só porque o fazem inconscientemente, assim automático, não, nem percebem. E aí olham ao redor com distância no olhar. Raras são as vezes em que se dão conta de que essa distância é superficial, estão todos muito perto uns dos outros e é a semelhança que os assusta.

Feito olhar no espelho. Feito ver a cicatriz de que não se gosta. Feito encarar a ferida que incomoda. Feito dar de cara com os defeitos que a gente finge que não tem, que é pra não se enfadar de si. Olhar o outro é se ver de perto. É também se perceber de longe. Dessa autoanálise, resta a separação, a fuga, o medo, o desejo de afastamento para não haver afrontamento. Porque ninguém pretende desabar.

A verdade é que ninguém sabe dar amor, mas teima em dar mesmo assim. Uns dão as mãos, outros dão presentes, alguns dão-se inteiros, há os que se guardem. É uma busca desesperada por uma dinâmica de interações: eu te amo, você me afaga, eu te banho, você me irrita, eu te ignoro, você me esquece, eu te chamo, você me encontra, eu te olho, você me pede, eu te respondo, você consente, eu te vejo, você se encanta, eu me despeço, você entristece. A gente não cansa de se cansar.

Em nome dos que precisam calados, dos que precisam espontâneos, dos que precisam em gritos, dos que precisam acanhados, dos que precisam devagarzinho, dos que precisam inteiros, dos que precisam sinceros, dos que precisam fugitivos, dos que precisam orgulhosos e até dos que fingem não precisar: assumam-se. Olhem-se nos espelhos todos – não sem medo, mas apesar dele. Encarem-se nos olhos do outro – não sem fuga, mas apesar dela. Amor não é sobre saber e isso sabemos bem. Não se ama porque se sabe amar, porque não tem um porquê. O amor só é, então seja. Sejam o amor que não sabem dar para que o amor seja dado sabendo ser.

sábado, 14 de julho de 2012

Versos de ninar


“Te amo tanto, sabia?”
Parecia tarde, mas era aurora
Desembalou chocolate, dividindo ao meio - dois pra um
O amor amanhecia de amar

Olha o cheiro de afago, sente o sabor do olhar
De tão presente se fazia futuro
Despertava a raiva de tão entregue
De tanta verdade se fazia confuso
O amor amanhecia de amar

Loucos, trêmulos, ofegantes, em êxtase
Do delicioso aroma de um carinho na nuca
Brotava o desejo de para sempre pois nunca mais
Encantados de si mesmos, adormeciam
E o amor amanhecia de amar

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Amparo

Sou este medo do mundo que habito - como se habitá-lo não me fosse natural -, mas se mergulho no contorno verde de seus olhos, que me entregam uma esperança que não esperava encontrar, logo esqueço meus temores para abraçar o encanto do que nos envolve. Parece-me que sou incapaz de resistir ao que você me desperta.

Eu tomo sustos de existir. Tenho um coração frágil que se dói todo quando acelera, quando quase para. Constantemente me perco na falta de habilidade de ser o eu que sou. É que o mundo me assusta, de mundano que é. Mas aí você aparece e me acorda um sorriso, dorme minhas tristezas, boceja devagar uns sussurros e me ama de um jeito que nem pra entender, nem pra explicar. E eu me espreguiçando do mundo, adormeço em você.

De tanto aparecer em meus sonhos, você já se parece um. Com direito a despertar assustada, sorrindo, devagar, quase dormindo, sem abrir os olhos, só ouvindo.

É que ao seu lado qualquer medo parece nenhum, qualquer desafio soa pequeno, qualquer dor finge que nem existe, todos os traumas recuam depressa e os teus dedos entre os meus tomam o lugar de tudo o que era significativo.

Nesses nados dessincronizados em seu olhar já muito me perdi, mas não quero me encontrar em outro lugar. O mundo me assusta. Deitada em seu peito eu me deparo com o lugar a que pertenço, onde os receios se dissipam, as alegrias se espalham, pois me percebi num mundo que me é natural, aconchegante e confortável.

No teu corpo, tenho um lar; na tua vida, um encontro; no teu mundo, o meu. Em você, amparo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Alusão à ilusão


A mentira que evito é a mesma que me alimenta. Não aprendi a conciliar valores ao desejo de ser feliz. Quero estar feliz. E não, não sou infeliz. Há tempos perdi essa prática - a de sofrer incomensuravelmente. Mas não sinto falta pois ainda sei me encontrar.

Eu quero tanto a verdade no sentimento que, sabendo sua raridade, fico assim sem significar a esperança. Porque não pareço agradar ninguém além de mim mesma. Não sei ser o que agrada - sei apenas ser o que me foge e se desenha fora de mim. E a mentira? A mentira acalenta os medos, angústias, crises. Mentira parece tão bom. Por isso mente-se e mentem-se todos e sempre. Porque mentira é conforto, mentira é o desejo.

Enquanto o falso está aí para nos preencher os olhos com sensações vazias, embora cheias de uma alegria quase real, o verdadeiro dói, faz cair, desilude. Mas é no verdadeiro que tenho real interesse. A mentira acaba, o falso se desfaz, o ilusório é temporário... Quero o verdadeiro em minha realidade para que possa ser desfeito de maneira a ter meu peito carregado de lembranças com verdade. Verdades no peito, eu quero sim.

Estou na fase dos desejos. E vem o desejo de escolher. Da mentira, estou cheia. De fantasias, minha memória está congestiada. Do fácil, eu não tenho provas. Mas quero do simples e complexo o seu máximo. Eu quero a chance de verdadeiro na oportunidade que o falso me oferece. O que eu quero, então, é amor. Que de maior verdade possui sua complexidade e oposição.

Eu quero, então, o amor em sua demonstração. Quero sua dedicação e apoio, sua intensidade e sutileza, suas palavras e aparições. Quero o amor em sua verdade para esquecer a beleza em que o falso se mostra. Porque não sei agradar e perco a esperança. Mas quero um sol pintado em colorido na janela - um sol ilusório que a verdade do amor me fará enxergar.

sábado, 30 de outubro de 2010

Incerteza que devasta

Não me leve a mal, é essa incerteza que me assusta. Eu tenho um medo absurdo de todas as coisas que você não diz e não sei se sente ou pensa. Tenho medo do que se esconde por trás de cada sorriso de fuga, de cada desvio de assunto. Medo do que pode não existir em você, não importa em que eu acredite.

É a verdade, tenho medo de você. Isso porque você tem muito poder sobre mim, sobre o que sinto. Você é um forte determinante da minha felicidade. Sei que caí numa armadilha, que é tudo tão perigoso, mas não há retorno, não tem mais volta. Eu já me permiti te amar completamente. Só me sentirei em paz quando puder sentir que você também me ama por completo.

Você me assusta com o que não diz e eu com todas as palavras que me escapam e te atingem. Irônico como somos perfeitamente opostos. Espero que essa contrariedade de fato nos encaixe. É que eu preciso tanto da tua companhia para não me sentir só nesse mundo. É que quero tanto teu corpo no meu para ser feliz.

Tenho medo disso também. Do que eu quero. Do que você pode não querer. Do que você pode não querer com a mesma intensidade e com os mesmos olhos que eu quero.

Eu tenho tanto, tanto medo. Revolto-me com a sua falta de palavras, com seu excesso de timidez, com sua mania de individualismo. Poxa, me ama, vai. Essas coisas não se pedem e por isso não as digo diretamente, mas eu quero tanto. Um tanto assim que aperta e às vezes sufoca e hoje deixou meus olhos pesados. Por que você não entende que não há vergonha alguma em amar? Você não tem que se envergonhar do que é bonito e verdadeiro. Você só tem que se entregar.

Vai, se entrega. Vem se jogar em mim. Esquece teus conceitos bem calculados e teus medos infundados que os meus também desaparecem. Deita em meu colo, decora o meu cheiro, respira meu corpo, sente o que sou por inteiro. Esquece o que você decidiu ser por uns tempos, experimente e perceba que gosta. Larga essa máscara e agarra minha cintura, finge que vai soltar nunca mais. Só tô pedindo amor. Só quero o que você reprime, só peço que derrube os muros e me convide para entrar assim sem aceitar meu não. Desiste de arquitetar cada atitude e no impulso me puxa pro teu abraço, me prende nos teus braços, me devora de vez. Para de mentir pra si mesmo que consegue ser feliz sozinho, sabe que não. Desiste desse vazio. Prefira mentiras sinceras como a eternidade ao meu lado que eu quero muito o lado teu.

Vem cá, me ama. Apaga teu medo que eu apago o meu. Fala a tua mente que abaixo o volume da minha. Sorria, até chore, mas me ame. É só o que eu quero, vejo nada de mais. Me ama, vai.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Plenitude


O vento sussurrava verdades em seu ouvido, mas ela se recusava a acreditar. O veneno a havia tomado inteiramente. A verdade parecia pequena, descartável, porém decisivamente presente. O que precisava não era exatamente necessário, ela apenas o queria. Infantilmente, ela o queria, e abraçava seu desejo como uma criança carente e ingênua.

A tarde seguia amendoada, explanando equívocos e derramando insuficiência na compreensão dos fatos. As árvores faziam com que a garota não se sentisse completamente sozinha, dando a ela algo com que conversar. As palavras saíam soltas, concluindo pensamentos variados que perturbavam seu coração e juízo. Ela observava as flores que brotaram no início da primavera e perguntava-se a respeito do sabor de seus perfumes, quase imperceptíveis.

Havia um transbordar de emoções naquela menina. Ela era tão delicada, e sensitiva. Podia perceber as deficiências do mundo em que vivia. Tanto precisava de mudança, tanto precisava de carinho.

- Isso se torna cada vez mais difícil – murmurou para os gravetos mais próximos, tocando-os levemente. – Há tanto para esclarecer sozinha, sabe? Gostaria de um parceiro... Não, um parceiro não. Um amigo. De verdade.

As folhas balançaram assentindo, o que dava à menina o sinal de que entendiam a sua ausência de sentido. Talvez não seja assim tão absurdo não fazer sentido, pensou consigo mesma. E suspirou. Um suspiro carregado de cansaço e desejos embutidos.

Um aperto no peito fez surgir a primeira lágrima. Não fazer sentido poderia não ser absurdo, mas era significativamente doloroso. Agora que era capaz de ver coisas que não fora antes... Parecia inevitável permanecer de olhos abertos. A realidade a atingia de todas as formas, até as mais cruéis. A verdade a golpeava violentamente, fazia com que se sentisse perdida, desorientada.

- Não faz sentido, é verdade. Mas se alguém estivesse comigo, compartilhando esta ausência de significado, ou mesmo o excesso desse... Você me entende, não é? Nunca tive afinidade com matemática, mas dois parece um bom número para mim.

Sorriu abertamente e de olhos fechados, deixando sua mente vagar no imaginário, lágrimas se misturando à sua saliva. Disseram-lhe que lágrimas eram salgadas... Pois as suas não, eram doces. Saboreava a leve angústia das lágrimas, ainda de olhos fechados, ainda em seu mundo aéreo.

Ela estava certa, depois de tanto tempo, de que havia algo infinitamente prazeroso em seu mundo. A fantasia lhe deixava menos inquieta, mais esperançosa. E por isso permitia-se imaginar, aceitava ter um pouco de esperança. Não lhe faria muito mal.

- Sabe que eu andei pensando esses dias... Algumas coisas, mesmo que implícitas, têm valor imenso. – O seu jeito sapeca de se expressar, sorrindo meigamente, combinava com a brisa leve que brincava com seus cabelos. – Um bom dia, um sorriso, um abraço, um beijo... Gosto de coisas que possuem valores implícitos. São tão mais preciosas, não acha?

O ar bagunçava a copa das árvores, anunciava a mudança de tempo. A menina não se importava que pudesse chover, não sentia vontade de voltar para casa agora. Sentia que deveria ficar – ela queria ficar -, e conversar com a natureza, que lhe entenderia melhor que os outros humanos.

- Às vezes, quando estou sozinha, eu me perco em meus próprios pensamentos, como agora, e me faço perguntas que não sou capaz de responder. Muitas delas são sobre esse meu amigo... Que nunca chega. Será que ele sabe que está atrasado?

Outro suspiro escapou de seus pulmões, junto com um sorriso acanhado.

- Acho que não sou um bom exemplo, não é? Estou sempre me atrasando! Mas eu queria que ele viesse logo... Eu me sinto tão sozinha. Sozinha para entender tudo e aceitar tudo como entendo.

Era uma garotinha confusa, cheia de compreensões com as quais lidar. O que pode fazê-lo perguntar-se se é mesmo necessário compreender tanto. Às vezes saber demais não é exatamente confortável, mas incômodo. Entender! Quão difícil é entender!

- Quão difícil é entender! – prostrou-se indignada. – Se eu ao menos soubesse que não estou sozinha nesse mar de incoerência... Se eu pudesse encontrar um valor implícito que me fosse amigo, parceiro, amável... Quero valores implícitos...

Nesse momento já chorava livremente. Não conseguia mais conter a responsabilidade de ver claramente, então deixou-a libertar-se suavemente e desmanchar-se ao percorrer sua pele. Era a dor de não sentir esperança, ou de tê-la em demasiado.

Ela era um ser exorbitante que precisava de alguém para receber o seu excesso. De amor, de vida, de compreensão. A ternura pulsava ali dentro, a afeição que precisava trocar. Ela era cheia, repleta, intensa. Aberta ao mundo e às ideias. Ela compreendia e se sobrecarregava com o saber.

Ela era um sorriso gratuito, um carinho que se recebe sem solicitação. Ela era meio fantasiosa, meio realista. Era doce, frágil e poderosa. Ela era e se engraçava por ser.

Ela era e chorava, não por ser, mas por estar, mais uma vez, sem ninguém. Porque ela era tanto, mas tanto, que precisava de alguém a quem ceder o seu muito.

A boca da noite chegava engolindo-a e levando-a para o escuro acolhedor. As lágrimas estavam chegando ao fim, já voltava à conformação de sempre, da espera. Uma voz suave tocou os seus ouvidos, despertando seus sentidos e coração:

- Posso te ajudar, menina?

Ele se aproximou, sorriu, chegou.